quarta-feira, 30 de março de 2011

Te quiero Benedetti! Te quiero Nacha!


Si te quiero es por que sos                                 Tuas mãos são minha carícia
Mi amor mi complice y todo                                      meus acordes cotidianos
Y en la calle codo a codo                                      te quero porque tuas mãos
Somos mucho mas que dos                                         trabalham pela justiça
Somos mucho mas que dos                                       se te quero é porque és
Tus manos son mi caricia                                meu amor meu cúmplice e tudo
Mis acordes cotidianos                                                   e na rua lado a lado
Te quiero porque tus manos                                 somos muito mais que dois
Trabajan por la justicia                                     teus olhos são minha súplica
Tus ojos son mi conjuro                                               contra o péssimo dia
Contra la mala jornada                                                te quero por teu olhar
Te quiero por tu mirada                                        que ao olhar semeia futuro
Que mira y siembra futuro                                   tua boca que é tua e minha
Tu boca es pura y mia                                            tua boca não se equivoca
Tu boca no se equivoca                                           te quero porque tua boca
Te quiero por que tu boca                                               sabe gritar rebeldia 
Sabe gritar rebeldia                                                 se te quero é porque és
Si te quiero es por que sos....etc                     meu amor meu cúmplice e tudo
Y por tu rostro sincero                                                   e na rua lado a lado
Y tu paso vagabundo                                           somos muito mais que dois
Titubeando por el mundo                                            e por teu rosto sincero
Porque sos pueblo te quiero                                       e teu passo vagabundo
Y por que amor no es aureola                                   e teu pranto pelo mundo
Ni candida moraleja                                                 porque és povo te quero
Y porque somos pareja                                  e porque o amor não é só brilho
Que sabe que no esta sola                                               nem ingênuo ritual
Te quiero en mi paraiso                                          e porque somos um casal
Es decir en mi pais                                                      que não está sozinho
La gente viva feliz                                                  te quero em meu paraíso
Aunque no tenga permiso                                    quer dizer que em meu país
Si te quiero es por que sos...                                           todos vivam felizes
                                                                              mesmo sem permissão
                                                                             se te quero é porque és
                                                                  meu amor meu cúmplice e tudo
                                                                                  e na rua lado a lado
                                                                        somos muito mais que dois
Olá! Nacha Guevara e Mario Benedetti - juntos! - é tuuuudo de bom, não? Pois é... Sempre que vou a uma livraria juro - por tudo de mais sagrado! - que só vou comprar um livrinho, nada mais... Rsrsr! Não me levem a sério! O encontro de hoje, na livraria, com Benedetti foi inesperado e irresistível...Levei-o para minha casa... e estou com ele no meu quarto, nas minhas mãos... Precisa dizer mais?????? Rsrs!
Vale a dica para vocês: de Mario Benedetti, O amor, as mulheres e a vida, da Verus Editora, com tradução de Julio Luis Gehlen, edição de 2010.Te quero se encontra na p. 45 dessa edição. Acrescentei à letra (adaptada) o poema traduzido. Para saberem mais sobre Nacha Guevara, acessem aqui.


Desejamos uma boa noite a todos! Bjssss! "Nós"!

domingo, 13 de março de 2011

O último post e o último discurso

"Contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão". In: Schiller, Friedrich. A Donzela de Orleans (em referência à Jeanne d'Arc, queimada viva por acusação de heresia)

O grande ditador não é entre os filmes de Chaplin o de que mais gosto. Claro, para além da crítica aguçadíssima de Chaplin aos regimes totalitários, existem cenas cuja ternura e cujo humanismo, como sempre em seus filmes, mexem profundamente com nossos sentimentos... Há ainda cenas hilárias como, por exemplo, já no início do filme, quando a personagem de Chaplin (o barbeiro judeu), tentando salvar um outro soldado (Schultz), pilota um avião realizando peripécias muito esquisitas, inclusive sobrevoando com o avião de cabeça para baixo! Também as famosas cenas de "balé" que Chaplin sempre interpreta sempre tão magistralmente em seus filmes podem ser vistas quando o gueto judeu é invadido pelos soldados nazistas e a personagem entra em conflito com a polícia _ não poderiam faltar as corriqueiras cenas nas quais Chaplin e os policiais se enfrentam!!!Além disso, Hynkel, também interpretado por Chaplin, verdadeiramente um alter-ego de Hitler, profere exaltados discursos em um "alemão" ininteligível mas ainda assim é ovacionado efusivamente pela multidão, que assiste a tudo em absoluto êxtase _ caricatura engraçadíssima das multidões alienadas. As cenas entre o barbeiro judeu e Hannah são as mais enternecedoras. Embora o filme seja uma crítica mordaz aos regimes totalitários, em se tratando de Chaplin, ternura não poderia faltar. É nas cenas entre Hannah e o barbeiro que ela melhor se manifesta e é a Hannah a quem, na cena final, ao proferir "o grande discurso" _ com destaque ao respeito aos direitos humanos em plena Segunda Guerra! _ ele se dirige: 

"Hannah, está me ouvindo? Onde quer que esteja, olhe para cima! Olhe para cima, Hannah! As nuvens estão subindo, o Sol está abrindo caminho! Estamos fora das trevas, indo em direção à luz! Estamos indo para um novo mundo; um mundo mais feliz, onde os homens vencerão a ganância, o ódio e a brutalidade. Olhe, Hannah!". 

Segue à fala um estrondoso aplauso da multidão.E o filme termina com uma tomada e cena focando Hannah, em uma outro local, distante do barbeiro _ confundido como Hitler pela multidão _ olhando para o céu. Como disse, embora não seja meu filme preferido, é, sem dúvida, uma obra-prima do cinema mundial. Desejamos-lhes um ótimo domingo! Bjs! Jana , Augusto e Tê!

sábado, 12 de março de 2011

O humanismo de Chaplin em "O grande ditador"

Em Minha vida Chaplin caracteriza O grande ditador como "uma comédia antinazista" (p. 457). O contexto histórico em que foi produzido mostrava-se inicialmente propício, na sociedade norte-americana da época, à sátira contra Hitler. O general alemão é representado pela personagem Hynkel, e Mussoline, pela personagem Napaloni (uma clara alusão a Napoleão...?). Mas esse clima de boa receptividade tomou novos rumos e, conforme o nazismo ia ganhando mundialmente força e popularidade, sustentado pela teoria de pureza racial e métodos violentos, mais e mais o cerco apertava-se contra Charlie Chaplin.
O que foi o filme de maior renda de sua carreira foi também o que mais dores de cabeça lhe causou, a tal ponto de ser expulso dos EUA. A princípio, recebia cartas de advertência da United Artists, avisos sobre censura antes mesmo de o filme vir oficialmente a público. Inclusive depois de sua estreia e do sucesso de bilheteria, recebia pressões de relevantes personalidades da política em conversas íntimas nas festas que frequentava. Vale a pena destacarem-se alguns trechos de diálogos nos quais Chaplin revela total firmeza quanto a seus propósitos de denunciar as atrocidades nazistas da época.


Após uma semana da estreia de O grande ditador, Chaplin encontrou-se, num jantar oferecido pelo proprietário do New York Times, Arthur Sulzberger, com o ex-presidente dos EUA, Herbert Hoover. Hoover, ao ser indagado sobre seus projetos acerca da missão que se propunha a cumprir na Europa, respondeu, entre rodeios e palavras cuidadosamente escolhidas, ser a de prestar ajuda à Europa "sem partidarismo, com propósitos exclusivamente humanitários" (p. 463; grifo meu). A certa altura, acrescentou em tom enfático a ressalva: "Não queremos, decerto, que as provisões caiam em poder dos nazistas." (p. 463; grifo meu).

Até então Hoover e Chaplin aparentemente pareciam concordar. No entanto, visando posicionar-se explicitamente em favor dos judeus, Chaplin manteve-se inabalável, apesar do intenso mal-estar que sua fala acarretou no pequeno grupo de convidados, favoráveis a um apoio a Hitler:


"_ Estou inteiramente de acordo com a ideia [do apoio norte-americano à Europa] desde que os alimentos não caiam em mãos dos nazistas." [...] "[...] e daria total apoio à proposta se a distribuição dos víveres e medicamentos pudesse ficar a cargo de judeus!" (p. 464)

Se a comida foi elogiada...? Bem, ... Rsrsr!!!


Até mesmo nas ruas Chaplin intervinha em favor dos judeus:


"Um filho de família nova-iorquino perguntou-me suavemente por que eu era tão contra os nazistas. Respondi:
_ Porque os nazistas são contra o povo.
_ Com certeza _ disse, como se lhe viesse uma repentina revelação _ o senhor é judeu, não é mesmo?
_ Não é preciso ser judeu para ser antinazista _ retruquei. _ Basta ser uma pessoa humana, decente e normal." (p. 465).


Se acabou o diálogo...? O que acham...?



Para quem deseja ler a sinopse do filme, acesse aqui.
Não percam, no post seguinte, a última cena: uma crítica impiedosa ao militarismo, preconceito, extremo abuso do poder e à insensatez humanos. Não é sem razão que essa fala da personagem é conhecidíssima e respeitada até hoje por aqueles que anseiam por um mundo mais humanizado.

Os trechos assinalados foram extraídos de: Chaplin, Charlie. Minha vida. Rio de Janeiro, José Olympio, 2005. Na primeira imagem, Hynkel diante da multidão. Na segunda, os dois ditadores: Hynkel e Napaloni atirando comida um no outro, em disputa pelo poder. Bj, Tê!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Isadora Duncan: vida, arte e mar

Ao tratar da obra de Isadora Duncan e sua vida, é inevitável fazê-lo sem citar sua relação com Nietzsche, Whitman, poetas russos da sua época, e com os artistas e filósofos da antiga Grécia.
Isadora foi a primeira dançarina de sua geração a utilizar os conceitos de "respiração natural", identificando-a com as ondas do mar. É por isso que transcrevo os trechos a seguir, extraídos de Minha vida, Ed. José Olympio, 10ª ed., 1986.


"Nasci junto do mar e já notei que todos os grandes acontecimentos da minha vida sempre ocorreram nas suas proximidades. A minha primeira ideia de movimento da dança veio-me certamente do ritmo das águas. [...] Acredito também que a vida de uma criança há de ser muito diferente, conforme ela tenha nascido junto do mar ou junto da montanha. O mar sempre me atraiu, enquanto as montanhas me dão um indefinido mal-estar e incitam-me a fugir. Elas me trazem a impressão de ser uma prisioneira da terra. Quando levanto os olhos para seus cumes, não experimento a admiração da generalidade dos turistas, mas apenas o desejo de saltar por cima deles e escapar-me. Minha vida e minha arte nasceram do mar. (p. 3 - 4)


"Minha arte é precisamente um esforço para exprimir em gestos e movimentos a verdade de meu ser. E foram-me precisos longos anos para encontrar o menor gesto absolutamente verdadeiro. As palavras têm um sentido diferente. Diante do público, que acudia em massa as minhas representações, eu jamais hesitei. Dava-lhes os impulsos mais secretos de minha alma.

Desde o inicio, nada mais fiz do que dançar a minha vida. Criança, dançava a alegria espontânea dos seres em crescimento. Adolescente, dancei com uma alegria que se transforma em apreensão diante das correntes obscuras e trágicas que começava a lobrigar no meu caminho. Apreensão da brutalidade implacável da vida e da sua marcha esmagadora" (prefácio)

Desejo-lhes uma excelente quarta-feira! Bj, Tê!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pedofilia em três atos


“Senta aqui, disse o pai”. E Gabi sentou. Depois, se lambuzou com os chocolates. Cinco anos.
............
“Bailarina, Gabi...? Vem cá no tio, que eu te ensino.” 
Oito anos.
............
“Gabi era assim, esquisita, chorosa desde pequena. Cheia de mas e reticências. Ficava horas com o olhar perdido, fixo nas ataduras e nos pulsos cortados...
Na mente, a mesma pergunta:
‘– De que adianta querer zerar o passado se há esse pingo a gotejar sobre minha cabeça...?’ ”
Quinze anos.

Por Teresinha Brandão
Boa noite! Bj carinhoso!!!! Tê!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Rainer M. Rilke: ainda das mulheres e dos homens

Imagem: aqui

"Assim, aqueles que se juntam durante as noites se entrelaçam em uma volúpia agitada fazem um trabalho sério, reúnem doçuras, profundidade e força para a canção de algum poeta vindouro que surgirá para expressar deleites indizíveis. Eles convocam o futuro; mesmo que errem e se abracem cegamente, o futuro virá apesar de tudo, um outro homem se elevará, e a partir do acaso que parece se realizar aqui desponta a lei pela qual um germe forte e resistente se lança em direção ao óvulo, que vem receptivo a seu encontro.

[...] Talvez se encontre acima de tudo uma grande maternidade, como anseio comum. [...] Também no homem a maternidade, ao que me parece, é corporal e espiritual; sua produção também é um modo de dar à luz, quando ele cria a partir da plenitude de seu íntimo está dando à luz. Talvez os sexos tenham mais afinidade do que se considera, e a grande renovação do mundo talvez venha a consistir no fato de que o homem e a mulher, libertados de todos os seus sentimentos equivocados e de todas as suas contrariedades, não se procurarão mais como adversários, mas como irmãos e vizinhos, unindo-se como seres humanos, para simplesmente suportar juntos, com seriedade e paciência, a difícil sexualidade que foi atribuída a eles. [...]" (Grifos meus)

Extraído de: Rilke, R. M. Cartas a um jovem poeta, trad. de Pedro Süssekind. Porto Alegre: L & PM, 2006, p. 45 - 47.

No post imediatamente anterior a este, ao transcrever um poema de Marina Colasanti e comentar sobre o livro A primeira vez à Brasileira, temas como sexualidade, relações entre mulheres e homens vieram à tona e afirmei "quero ter fé em que, um dia talvez, homens e mulheres sejam "apenas" pessoas... É uma utopia? É. Simples assim."

No fragmento da carta acima, Rainer Maria Rilke soube expor como grande poeta que é, essas mesmas "utopias" _ relações, acrescidas de outras, tais como maternidade e criação artística. Simples assim? É. Simples assim.
Grande bj! Tê!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Das mulheres e dos homens: (des)amor e (des)sexualidade

Imagem: de Ognian Kouzmanov (aqui)

Sexta-feira
Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clitóris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.
Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Por Marina Colasanti (aqui)


Lembro-me de que, quando li A Primeira Vez... à Brasileira, Ed. Nosso tempo, 1979, da escritora e feminista Heloneida Studart e de Wilson Cunha, dois aspectos na obra me sensibilizaram: a seriedade do trabalho realizado pelos organizadores e a maneira opressiva como tanto homens quanto mulheres lidam com sua sexualidade _ termo a ser diferenciado de vida ou relação sexual _, sobretudo na primeira experiência sexual. O livro relata, em forma de depoimentos, a primeira relação sexual de personalidades tais quais Elke Maravilha, Ney Latorraca, Sandra Bréa, Marília Pêra, Di Cavalcanti, Othon Bastos, entre outras.

Não pude, ao me deparar com o poema acima, deixar de associá-lo às narrativas do livro... O depoimento de Othon Bastos foi marcante, sensível, assim como o de outras figuras masculinas. Depoimentos doídos, sofridos, depoimentos de quem tão-só deseja livrar-se de um passado assustador...

Apesar de ainda haver muito radicalismo em determinados grupos de movimentos feministas em todo o mundo, pergunto-me: e os homens são apenas "vilões" desse espetáculo grotesco em que se transformou a vida sexual de muitas pessoas? Não..., não acredito nisso. Quero crer na possibilidade de superação da "guerra sexista" desses grupos radicais.

Com todo o respeito merecido pelas conquistas de muitas mulheres que abalaram as relações do patriarcalismo opressor, romperam com a tirania de leis intransigentes, de tabus e dogmas, tornando-se precursoras e geradoras de novas ideias mais humanistas e humanizadoras, manifestas nas novas práticas sociais, políticas e culturais, quero ter fé em que, um dia talvez, homens e mulheres sejam "apenas" pessoas... É uma utopia? É. Simples assim. Quanto ao livro, leitura recomendada. Grande bj, Tê!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Clara Nunes: porta-voz dos orixás e do mar


A MPB e muitos brasileiros sentem a falta de Clara Nunes... Talvez tenha sido a voz feminina que mais homenageou as divindades afrobrasileiras. Para saberem mais sobre a cantora, acessem aqui. Desejamos um excelente domingo! Bjssss nossos!

O mar de Dori Caymmi


Dorival Caymmi... amou o mar com toda a intensidade: seu corpo, sua voz, sua música exalavam o doce perfume do mar...! 

"Os negros e mulatos que têm suas vidas amarradas ao mar têm sido a minha mais permanente inspiração. Não sei de drama mais poderoso que o das mulheres que esperam a volta, sempre incerta, dos maridos que partem todas as manhãs para o mar no bojo dos leves saveiros ou das milagrosas jangadas. E não sei de lendas mais belas que as da Rainha do Mar, a Inaeê dos negros baianos". Para lerem mais, cliquem aqui.

Yemanjá na voz de Mariza Monte



Dia 02 de fevereiro foi também o dia de homenagens a Yemanjá. Esse orixá feminino é um dos mais cultuados em nosso país. Assim como Nossa Senhora dos Navegantes, Yemanjá é protetora dos humildes pescadores, dos marinheiros, e, sobretudo dos que "dialogam" com o mar... Porque o mar "é de quem o sabe amar", como bem lembram os poetas, as santas e os orixás, e mais, Leila Diniz e Milton Nascimento. Para saber mais sobre Yemanjá, acessem aqui. Desejamos um excelente domingo! Bjssss nossos!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Os poetas e as santas: conversas com mar

Imagem: Preparação para a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes.
Foto: acervo pessoal: Teresinha Brandão

Passei o dia ouvindo o que o mar dizia
Eu hontem passei o dia 
Ouvindo o que o mar dizia. 
Chorámos, rimos, cantámos. 
Fallou-me do seu destino, 
Do seu fado... 
Depois, para se alegrar, 
Ergueu-se, e bailando, e rindo, 
Poz-se a cantar 
Um canto molhádo e lindo. 
O seu halito perfuma, 
E o seu perfume faz mal! 
Deserto de aguas sem fim. 
Ó sepultura da minha raça 
Quando me guardas a mim?... 
Elle afastou-se calado; 
Eu afastei-me mais triste, 
Mais doente, mais cansado... 
Ao longe o Sol na agonia 
De rôxo as aguas tingia. 
"Voz do mar, mysteriosa; 
Voz do amôr e da verdade! 
- Ó voz moribunda e dôce 
Da minha grande Saudade! 
Voz amarga de quem fica, 
Trémula voz de quem parte..." 
. . . . . . . . . . . . . . . . 
E os poetas a cantar 
São echos da voz do mar!


Por António Botto, em Canções.

No post imediatamente anterior a este mencionei os versos de uma composição de Leila Diniz e Milton Nascimento: Brigam Espanha e Holanda/ Pelos direitos do mar/ Porque não sabem que o mar/ É de quem o sabe amar.

Com poucos dias de atraso, lembro a Festa de Nossa senhora de Navegantes (02/02/2011), protetora dos humildes pescadores, dos marinheiros, e, sobretudo dos que "dialogam" com o mar... Porque o mar "é de quem o sabe amar". É lindo apreciar o sentimento de religiosidade dos que participam da festa, com os barquinhos e jangadas, enfeitadas com flores e bandeirinhas, carregada de singelos presentes, tudo feito pelas mãos dos próprios pescadores, talvez os que, como os poetas, mais dialogam com o mar e o compreendam... 
.................
"A designação Nossa Senhora dos Navegantes originou-se no século XV com a navegação dos europeus, especialmente dos portugueses. Aqueles que viajavam pediam proteção a Nossa Senhora, para retornarem salvos à pátria.

O simbolismo da mulher corajosa e orientadora dos viajantes fez com que Maria fosse vista como uma eterna vencedora dos inimigos das tempestades. Costuma-se festejar o dia que lhe é dedicado, com uma grande procissão fluvial no Brasil. [...]". Leia mais clicando aqui.

Bjs nossos!!!! Desejamos um ótimo sábado!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Leila Diniz e os donos (?!) do mar

Imagem: Leila Diniz em Ipanema, RJ, década de 60 (aqui)


Brigam Espanha e Holanda 

Pelos direitos do mar


O mar é das gaivotas


Que nele sabem voar


O mar é das gaivotas


E de quem sabe navegar.


Brigam Espanha e Holanda


Pelos direitos do mar


Brigam Espanha e Holanda


Porque não sabem que o mar


É de quem o sabe amar.

Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco, é uma composição de Leila Diniz e foi lindamente musicada na igualmente bela voz de Milton Nascimento*. Cliquem no link  para ouvi-la. Indescritível!

Imagem: Leila Diniz grávida de Janaína (aqui)

Para saberem mais acerca da biografia de Leila Diniz, acessem aqui.


*Há a versão da música com a gravação da voz de Leila declamando ao fundo os versos acima e Milton cantando. No entanto, não está muito nítido o vídeo. Daí a preferência por este.


Amanhã, em algumas cidades do RS, como Pelotas, é feriado: comemora-se o Dia de Yemanjá e a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. O sincretismo religioso no Brasil é forte. Amanhã postarei sobre essas divindades, Donas do Mar. Divindades femininas... E "mães"... O que haverá de mágico no mar que seduz tanto as mulheres? Por que elas (os homens também...?) o compreendem tão bem? Talvez tenha sido esse "amor incondicional pelo mar" que me estimulou a postar hoje sobre o mar... e essa linda e intensa mulher: Leila Diniz.


Bjs!!!! Um excelente início de semana! Tê!

domingo, 30 de janeiro de 2011

Por que a Betty é azul...?

Imagens: aqui

Intensidade

Quem
peito
abarca
louco 
aperta


O amor de Betty e Zorg...

Sobre o poema: Benedetti, Mario. O amor, as mulheres e a vida. Campinas: Verus, 2010, p, 115.

E não é...? 

O estranho e sensível "Betty Blue"


Betty Blue eu vi ainda no final da década de 80, com a Gikinha, minha amigona. Não perdíamos um filme no "Sessão de Arte", fizesse sol, chuva ou frio - e às vezes fazia muuuuuuito frio! Adoramos Betty, desde a trilha sonora (belíssima!) até a  trama (um drama ultrassensível!), o elenco. Eu indico. Acho que ela também indicaria. Vejam algumas cenas e curtam a trilha sonora (um som "demaiiiis de lindo", rsrs!). Há também detalhes sobre o filme. Basta acessarem aqui. E bjocas carinhosas com o desejo de um excelente domingo! Tê!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Hans Sylvester

Trabalho lindíssimo, não? Merece ser divulgado. Desejamos um excelente sábado! Bjs!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os múltiplos sentidos dos corpos (ou a estética que fala)

A África continua sendo vista não só por capitalistas sedentos de novas fontes de renda, mas também por alguns intelectuais de esquerda mal informados, como um paraíso exótico e extravagante, pronto a ser aqui na terra desfrutado, apreciado, saboreado. Corrobora-se, assim, a tese do "bom selvagem"*. Ora, até então, nenhuma novidade pois talvez seja justamente essa tese que garante a exploração sempre ilimitada - principalmente econômica - de outras nações ocidentais mais ricas sobre as do continente africano, e mais, de países africanos sobre outros também países africanos.


Entretanto, essa "passividade" do "bom selvagem africano" foi questionada pelas lentes atentas e críticas de Hans Sylvester. Até me deparar com o livro  de Sylvester - Les peuples de l'Omo**sequer tinha ouvido falar da existência do território e das tribos Surma e Mursi, habitantes do entorno do Rio Omo, na fronteira com a Etiópia, na África Oriental. Menos ainda sabia de seus costumes e de sua maneira de (sobre)viver.   
O livro mostrou-me que, longe dessa passividade que lhes é atribuída, seus habitantes se veem constantemente envolvidos em guerrilhas pois o território dessas tribos configura-se um espaço claramente delimitado do comércio de armas e marfim. Mesmo diante das possibilidades de tantos conflitos, é de se admirar a preocupação das tribos com questões estéticas, concordam? Mas não creio ser exatamente assim. As fotos revelam um povo bastante vaidoso com seu visual, porém, seria esse realmente ou tão-só o motivo de se enfeitar com tanto cuidado...? Aliás, por que desde sempre a humanidade pinta seus rostos e corpo, tatua-se, enfeita-se? Quais sentidos as tribos desejam expressar com essa atitude? Apenas prazer? Essa é a ideia que inferi da leitura da obra. Bem, pode não ser a única... E os motivos políticos ou as políticas de se "dizer" algo com tais looks?, acrescento. Improváveis?
No livro, ao se evidenciarem as imagens,questiona-se: como fazem para criar seus visuais? Segundo as informações colhidas, muitos nativos, ao longo do tempo, passaram a usar peles de animais obtidas em suas caças para transformá-las em lindas caneleiras. Como a região - vulcânica - oferece-lhes um amplo conjunto de pigmentos multicores, usam-nos para pintarem seus corpos, valendo-se apenas das pontas dos dedos e de um pouco de argila. Pintam a si próprios e aos outros numa atitude lúdica, cujos resultados expressam intensa beleza e sensualidade.
Às vezes, um tronco, um galho, uma flor, ou mesmo uma folha servem como acessórios para adornar a cabeça, as orelhas, o pescoço. Noutras, isso se torna dispensável, como na foto imediatamente abaixo. Todo esse envolvimento com os recursos naturais fazem do corpo uma extensão da própria natureza. Mesclam-se o humano, o vegetal e animal em perfeita harmonia.
Os corpos são a "tela"; os recursos da natureza, a "tinta"; e os dedos, os "pincéis", o instrumento. E assim, vão expressando sentidos e criando lindas obras de arte...! Quem manteve contato com os nativos afirma não haver uma "teoria" capaz de explicar sua arte. Chegam a dizer que, ao vê-los pintar seus corpos, ficaram extasiados pois o fazem com uma velocidade comparada com a que Jackson Pollock*** pintava seus quadros!
Mas voltemos ao questionamento inicial: que sentidos expressam seus corpos...? Ou ainda: por que os enfeitam dessa forma? Difícil explicar... os "homens de Kibish", como também são conhecidos, têm sua ascendência em ancestrais de 120.000 anos. Sem conhecer a história desses grupos, que se têm mantidos isolados da civilização, tanto ocidental quanto oriental, como saber? Todo corpo tem sua história, não nos esqueçamos disso...
Hans Sylvester compilou as fotografias em forma de livro, como já mencionei. Sem dúvida, um trabalho riquíssimo, mas é possível que se torne no futuro apenas um acervo a ser guardado em prateleiras de bibliotecas ou em materiais digitalizados.


A justificativa para a afirmação anterior reside no fato de, em nome do progresso, a energia elétrica se fazer necessária. Até aí tudo bem, desde que houvesse progresso mas a cultura desses povos fosse preservada.
Projeto há para se construir e instalar uma hidrelétrica capaz de gerar energia para a capital da Etiópia, Adis Abeba. Entretanto, o  governo desse país não tem demonstrado preocupação com os efeitos desastrosos que tal projeto possa vir a causar sobre as tribos.
Pergunto: não haveria outras alternativas de se gerar essa energia necessária sem acarretar a possível extinção ou "contaminação" das tribos com grupos já "civilizados"? Os representantes dos governos se interessam por essas alternativas? Parece que não. Lamentável a ideia de "progresso" dos chefes de governo de alguns países...
O que fazer? Para os mais céticos em relação a mudanças sociais, resta-lhes admirar as deslumbrantes fotos de Hans Sylvester... E aos outros...? Quem sabe...?
Por fim, algumas informações sobre o fotógrafo. Hans Sylvester nasceu em Lorrach, Alemanha, em 1938. Sua obra já foi exposta em diferentes museus e espaços culturais de várias partes do mundo. Ao optar pelo livro como meio de compilar sua obra, Sylvester procura atingir um número maior de apreciadores. Recebeu uma medalha de bronze em 1975, na Feira do Livro de Leipzig (Alemanha) e o prêmio Águia de Ouro, em 1976, na Feira do Livro de Nice (França). As fotos deste post, presentes no livro Les peuples de l'Omo, renderam-lhe a premiação do Livro do Ano da Fotografia, em 2006, Paris.

* Sobre o mito do bom selvagem: cliquem aqui.
**Para redigir este post, consultei a versão em francês do livro Les peuples de l'Ómo, do autor citado.As imagens foram extraídas da internet.
*** Sugiro assistirem ao filme Pollock, que mostra a trajetória pessoal e artística do pintor.


Desejamos um excelente final de quinta-feira! Bjssss! Jana e Tê! Augusto manda bjs da Bahia! Uauuuu! 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A sensibilidade poético-visual do erotismo




Descrição honesta de si mesmo junto a um copo de whisky no aeroporto, digamos, em Minneapolis


Meus ouvidos ouvem cada vez menos das conversas,
meus olhos vão ficando mais fracos,
mas não se fartaram.
Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas ou tecidos voláteis.
Observo uma a uma suas bundas e coxas, pensativo,
acalentado por sonhos pornô.
Velho depravado, é a cova que te espera,
não os jogos e folguedos da juventude.
Não é verdade, faço apenas o que sempre fiz,
compondo cenas dessa terra sob as ordens
de uma imaginação erótica.
Não desejo essas criaturas, desejo tudo,
e elas são como o signo de uma convivência estática.
Não é minha culpa se somos feitos assim,
metade contemplação desinteressada, e metade apetite.
Se após a morte eu chegar ao Céu,
lá deve ser como aqui, só que me terei desfeito da obtusidade dos sentidos
e do peso dos ossos.
Tornado puro olhar, sorverei ainda as proporções do corpo humano,
a cor da íris, uma rua de Paris em junho de manhãzinha, toda a incompreensível,
a incompreensível multidão das coisas visíveis.

(Czeslaw Milosz, poeta polonês, Nobel de Literatura, 1980)

O poema pode ser encontrado em Não mais. Brasília: Ed. UNB, 2003, com tradução de Marcelo Paiva de Souza. Ou em Caderno de Literatura. Porto Alegre, Jun/2009, ano XIII, n. 17, p: 43.

Para saberem mais sobre Czeslaw Milosz, cliquem aqui.

Imagens extraídas do Museu de Arte Erótica Romeo Zanchett (aqui). O MAERZ é o primeiro museu de arte erótica da cidade do Rio de Janeiro. Ele surgiu por iniciativa do artista plástico Nicéas Romeo Zanchett, que ampliou e transformou seu atelier em museu particular, abrigando as obras originais do artista.


Para lerem um pouco sobre a arte do erotismo, confiram o texto de Romeu Zanchett _ A arte do erotismo _, clicando aqui. Lembro que, em muitas sociedades, como na Índia antiga, por exemplo, o ato sexual não era considerado em oposição à espiritualidade. Ao contrário, a ele era atribuído um lugar de honra. Homens e mulheres estudavam o Kama Sutra e textos similares. Os templos estavam cobertos de baixos-relevos ilustrando as mais diversas posições sexuais.

Esse erotismo me pareceu muito bem representado no poema e nas esculturas acima. Lindos, não? Até então, com algumas exceções - Benedetti, Cortázar -, sempre postava no Tear poemas relacionados à arte erótica sob a perspectiva feminina. Que tal virar a moeda? Desejo-lhes uma excelente terça-feira! Bj, Tê!