quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Palindromerando nas ruas de Satolep...

Este vídeo, um book trailler feito com a participação de Eduardo Amaro da Silveira, pelotense radicado em Lisboa _, sobre a obra Satolep do também pelotense Vítor Ramil serviu-me como uma primeira reflexão acerca do significado do termo palíndromo, originado das palavras gregas palin ("trás") e dromos ("corrida"). As frases cujas construções são feitas com palíndromos denominam-se anacíclicas, do grego anakúklein, significando uma volta em sentido inverso, refazendo inversamente o ciclo da leitura.

Imagem: aqui
Sob o ponto de vista filosófico, o palíndromo sintetiza o início e fim. Em poucas palavras: sintetiza também o retorno à origem, mas no sentido inverso, o “eterno retorno” sobre o qual muitos filósofos não se cansam de refletir. Expressa um sentido de permanência, como se a eternidade fosse trazida ao presente, sem deixar de ser infinita _ um círculo vicioso? Uma circularidade?


Não li sobre a estética do frio, de Vítor. Aliás, leitura sempre adiada essa, mas a me instigar! Conheço a música, que transcreverei noutro post. Vítor percebe Satolep como uma cidade circular? Em que sentido? A que retorna? Para aonde vai? Vejam que interessante palíndromo criado pelo nosso compositor pelotense. Além disso, quem desejar acessar a letra de Satolep, bem como a biografia de Ramil, clique aqui e aqui.

P E L O T A S
1 2 3 4 5 6 7
S A T O L E P
7 6 5 4 3 2 1


Pelotas é uma cidade que “corre atrás”? De quê? Para aonde? Por que Vítor Ramil teria invertido as letras, formando uma imagem “espelhada” de Pelotas? Ele a vê pelo “avesso”? Ou o avesso não é o avesso? É o contrário desses questionamentos? Bem, são divagações para uma nova postagem...


Palíndromos tornaram-se famosos igualmente em outras línguas. São palavras, frases ou qualquer outra sequência de vocábulos que pode ser lida tanto da direita para a esquerda como da esquerda para a direita. Cumpre esclarecer que são desconsideradas as marcas de acentuação, bem como as de pontuação e os espaços entre as palavras.


Em francês: “Leon nón osa rever a son Noel”, ou seja, “Leon não ousa sonhar com seu Noel (Natal)”.


Em inglês, “A man, a plan, a canal: Panamá” (Theodore Rooselvelt), além do clássico “Madam, I’m Adam” — frase com que Adão saudou Eva, na versão inglesa do gênese (He, he! Que Adão gentil...!). Em espanhol, “Dabale arroz a la zorra el abad”. Em português, “Roma me tem amor”, é registrado como o mais antigo. No entanto, é em latim que a palindromia ficou bastante conhecida.


Representadas pelo Quadrado Sator, as palavras podem ser lidas em qualquer direção, conforme esquema abaixo, cujo significado remete a “O semeador Arepo trabalha auxiliado por uma roda” (“Sator Arepo tenet opera rotas”). O palíndromo pode ser representado por uma forma espelhada, em que a palavra/enunciado escolhida/o aparece às avessas: a primeira letra da frase é igual à última, a segunda igual à penúltima, sucessivamente, obedecendo a uma cadeia até chegar à letra central, isso se o número total de letras for ímpar, ou letras centrais se o número for par, como no referido Quadrado Sator.                                       
                                                         
                                                                S A T O R
A R E P O
T E N E T
O P E R A
R O T A S


Rômulo Marinho, apaixonado estudioso do assunto, explica que não há consenso acerca de sua “tradução”, reforçando a ideia de quão “intraduzível” pode ser a estrutura palíndroma não apenas nesse caso, como também de um modo geral. Cita mais duas traduções possíveis: “Arepo, o semeador, segura as rodas durante o trabalho”; “Sator, o pastor, tem suas obras encaminhadas”. Retomando Satolep, de Vítor Ramil, lembramos que voltaremos, em outros posts a examinar composições da MPB, cujos artistas igualmente criaram suas músicas valendo-se dessa técnica.

Enquanto isso ... por que não põem a criatividade à mostra, caros leitores? Amanhã postarei um poema que "pretende" ser poema e formado por palíndromos. Bjsss nossos! Uma ótima quinta-feira!

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