sábado, 12 de março de 2011

O humanismo de Chaplin em "O grande ditador"

Em Minha vida Chaplin caracteriza O grande ditador como "uma comédia antinazista" (p. 457). O contexto histórico em que foi produzido mostrava-se inicialmente propício, na sociedade norte-americana da época, à sátira contra Hitler. O general alemão é representado pela personagem Hynkel, e Mussoline, pela personagem Napaloni (uma clara alusão a Napoleão...?). Mas esse clima de boa receptividade tomou novos rumos e, conforme o nazismo ia ganhando mundialmente força e popularidade, sustentado pela teoria de pureza racial e métodos violentos, mais e mais o cerco apertava-se contra Charlie Chaplin.
O que foi o filme de maior renda de sua carreira foi também o que mais dores de cabeça lhe causou, a tal ponto de ser expulso dos EUA. A princípio, recebia cartas de advertência da United Artists, avisos sobre censura antes mesmo de o filme vir oficialmente a público. Inclusive depois de sua estreia e do sucesso de bilheteria, recebia pressões de relevantes personalidades da política em conversas íntimas nas festas que frequentava. Vale a pena destacarem-se alguns trechos de diálogos nos quais Chaplin revela total firmeza quanto a seus propósitos de denunciar as atrocidades nazistas da época.


Após uma semana da estreia de O grande ditador, Chaplin encontrou-se, num jantar oferecido pelo proprietário do New York Times, Arthur Sulzberger, com o ex-presidente dos EUA, Herbert Hoover. Hoover, ao ser indagado sobre seus projetos acerca da missão que se propunha a cumprir na Europa, respondeu, entre rodeios e palavras cuidadosamente escolhidas, ser a de prestar ajuda à Europa "sem partidarismo, com propósitos exclusivamente humanitários" (p. 463; grifo meu). A certa altura, acrescentou em tom enfático a ressalva: "Não queremos, decerto, que as provisões caiam em poder dos nazistas." (p. 463; grifo meu).

Até então Hoover e Chaplin aparentemente pareciam concordar. No entanto, visando posicionar-se explicitamente em favor dos judeus, Chaplin manteve-se inabalável, apesar do intenso mal-estar que sua fala acarretou no pequeno grupo de convidados, favoráveis a um apoio a Hitler:


"_ Estou inteiramente de acordo com a ideia [do apoio norte-americano à Europa] desde que os alimentos não caiam em mãos dos nazistas." [...] "[...] e daria total apoio à proposta se a distribuição dos víveres e medicamentos pudesse ficar a cargo de judeus!" (p. 464)

Se a comida foi elogiada...? Bem, ... Rsrsr!!!


Até mesmo nas ruas Chaplin intervinha em favor dos judeus:


"Um filho de família nova-iorquino perguntou-me suavemente por que eu era tão contra os nazistas. Respondi:
_ Porque os nazistas são contra o povo.
_ Com certeza _ disse, como se lhe viesse uma repentina revelação _ o senhor é judeu, não é mesmo?
_ Não é preciso ser judeu para ser antinazista _ retruquei. _ Basta ser uma pessoa humana, decente e normal." (p. 465).


Se acabou o diálogo...? O que acham...?



Para quem deseja ler a sinopse do filme, acesse aqui.
Não percam, no post seguinte, a última cena: uma crítica impiedosa ao militarismo, preconceito, extremo abuso do poder e à insensatez humanos. Não é sem razão que essa fala da personagem é conhecidíssima e respeitada até hoje por aqueles que anseiam por um mundo mais humanizado.

Os trechos assinalados foram extraídos de: Chaplin, Charlie. Minha vida. Rio de Janeiro, José Olympio, 2005. Na primeira imagem, Hynkel diante da multidão. Na segunda, os dois ditadores: Hynkel e Napaloni atirando comida um no outro, em disputa pelo poder. Bj, Tê!

Um comentário:

Marchiori Quevedo disse...

Eu não sabia do contexto desse filme. Imaginava, ingenuamente, que ele sempre contara com o indefectível apoio e os aplausos dos não-nazistas...

Por isso, esse blog é uma fonte áurea de cultura pra mim. :)

Abraço!