terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A sensibilidade poético-visual do erotismo




Descrição honesta de si mesmo junto a um copo de whisky no aeroporto, digamos, em Minneapolis


Meus ouvidos ouvem cada vez menos das conversas,
meus olhos vão ficando mais fracos,
mas não se fartaram.
Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas ou tecidos voláteis.
Observo uma a uma suas bundas e coxas, pensativo,
acalentado por sonhos pornô.
Velho depravado, é a cova que te espera,
não os jogos e folguedos da juventude.
Não é verdade, faço apenas o que sempre fiz,
compondo cenas dessa terra sob as ordens
de uma imaginação erótica.
Não desejo essas criaturas, desejo tudo,
e elas são como o signo de uma convivência estática.
Não é minha culpa se somos feitos assim,
metade contemplação desinteressada, e metade apetite.
Se após a morte eu chegar ao Céu,
lá deve ser como aqui, só que me terei desfeito da obtusidade dos sentidos
e do peso dos ossos.
Tornado puro olhar, sorverei ainda as proporções do corpo humano,
a cor da íris, uma rua de Paris em junho de manhãzinha, toda a incompreensível,
a incompreensível multidão das coisas visíveis.

(Czeslaw Milosz, poeta polonês, Nobel de Literatura, 1980)

O poema pode ser encontrado em Não mais. Brasília: Ed. UNB, 2003, com tradução de Marcelo Paiva de Souza. Ou em Caderno de Literatura. Porto Alegre, Jun/2009, ano XIII, n. 17, p: 43.

Para saberem mais sobre Czeslaw Milosz, cliquem aqui.

Imagens extraídas do Museu de Arte Erótica Romeo Zanchett (aqui). O MAERZ é o primeiro museu de arte erótica da cidade do Rio de Janeiro. Ele surgiu por iniciativa do artista plástico Nicéas Romeo Zanchett, que ampliou e transformou seu atelier em museu particular, abrigando as obras originais do artista.


Para lerem um pouco sobre a arte do erotismo, confiram o texto de Romeu Zanchett _ A arte do erotismo _, clicando aqui. Lembro que, em muitas sociedades, como na Índia antiga, por exemplo, o ato sexual não era considerado em oposição à espiritualidade. Ao contrário, a ele era atribuído um lugar de honra. Homens e mulheres estudavam o Kama Sutra e textos similares. Os templos estavam cobertos de baixos-relevos ilustrando as mais diversas posições sexuais.

Esse erotismo me pareceu muito bem representado no poema e nas esculturas acima. Lindos, não? Até então, com algumas exceções - Benedetti, Cortázar -, sempre postava no Tear poemas relacionados à arte erótica sob a perspectiva feminina. Que tal virar a moeda? Desejo-lhes uma excelente terça-feira! Bj, Tê!

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