sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Catherine Abel: elegância e ousadia à moda vintage

Imagem:chapéu cloche (aqui)
Catherine Abel é uma talentosíssima pintora autraliana, que mora em Sidney, embora já tenha realizado cursos e exposições em Paris iniciados em 2000. Posteriormente, na Itália, tomou contato com as obras do Renascimento e percebeu a importante contribuição dos renascentistas na própria obra. Mas foi das telas de Pablo Picasso, Miró e Tamara de Lempicka, entre outros, de quem sofreu muita influência.

Suas pinturas não se limitam ao perfil feminino ainda que a maioria seja voltada às mulheres, sobretudo as do universo vintage – as sensualíssimas “melindrosas” que frequentavam os salões da era do jazz. Determinadas, audaciosas, elas são retratadas por Catherine com uma mescla de elegância, bom gosto e pintadas com roupas em cores vivas e alegres, com diversificadas estampas, e, como não poderia faltar, com os lábios bem delineados pelo uso do batom em carmim e do chapéu cloche. Carregam flores ou cercam-se de um ambiente adornado delas para, quem sabe, manifestar a leveza e o colorido da vida dos anos 20, de um lado, e a agitação e ousadia de outro.

Visitem o site oficial: aqui.  Vale a pena conferir! Deliciem-se! Bjuuuussss nossos!!!!!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

As mulheres de Catherine Abel









A artista australiana é a criadora desses lindas pinturas. Amanhã comentarei sobre elas. Por enquanto, deliciem-se! Boa noite e bjs nossos! 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Anaïs Nin: uma Vênus com asas

Pintura de Cunde Wang (aqui)
"O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim que não consegui resistir a ele.Enfrentei meus sentimentos.


A vida não é racional; é louca e cheia de mágoa. Mas não quero viver comigo mesma. Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal.

Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente.

Quero conhecer pessoas perversas, ser íntimas delas. Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. Eu estava esperando. Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro. Todo o resto foi uma preparação.

A verdade é que sou inconstante, com estímulos sensuais em muitas direções.


Fiquei docemente adormecida por alguns séculos, e entrei em erupção sem avisar."


Por Anaïs Nin

Trecho do conto Baile de máscaras no Mardi Gras (aqui). Desejamos uma ótima quarta-feira. Amanhã, o post com Maria Teresa Horta. Bjsssss nossos!

Frida Kahlo: a dor que voa

Imagem: O universo de Frida Kahlo (aqui)
"Não necessito de roupas nem auréolas… não necessito de saúde em minhas pernas… Tenho asas para empreender o voo… Pés… para que os quero se tenho asas para voar…”

Por Frida Kahlo 

Para saber um pouco mais sobre Frida, cliquem aqui.

Palavras de Lou

"A vida te dará poucos presentes, acredita. Se queres uma vida, é preciso que a roubes." (p.11)

"Ousa tudo, não tenhas necessidade de nada." (p. 11)

"Só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o passar do tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser entendido como uma força vital." (capa)

Por Lou Andreas-Salomé

Extraído de: Ferreira, Luzilá Gonçalves. Humana, demasiado humana. RJ: Rocco, 2000.

A liberdade, por Clarice Lispector

Imagem: Isadora Duncan
"- Ela é tão livre que um dia será presa.
- Presa por quê?
- Por excesso de liberdade.
- Mas essa liberdade é inocente?
- É. Até mesmo ingênua.
- Então por que a prisão?
- Porque a liberdade ofende."

(Clarice Lispector)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ninguém segura essas mulheres: transgressão, arte e vida

Na parte de cima, da esquerda à direita: Anaïs Nin, Frida Kahlo, Isadora Duncan; na de baixo, na mesma direção: Maria Teresa Horta, Lou Andreas-Salomé; e Florbela Espanca. Destacaram-se mundialmente na literatura, na pintura e na dança.

O que teriam em comum? Creio que a transgressão a todo e qualquer tipo de poder, bem como a paixão pela vida (ainda que na biografia de Florbela conste o suicídio) e a coragem para enfrentar preconceitos, mudando comportamentos e hábitos já viciados pela reprodução de valores conformistas. Elas são um tipo de mulheres especial: "Qualquer maneira de amor [a tudo que desperte vida] vale a pena!", aliás, são fruto da minha profunda admiração, que me perco de um lado e de outro, ... que "me perco": que fazer? Que rumos tomar quando a coragem não vem...? Simples assim: ao menos as aplaudo - o que não quer dizer muito! - e divulgo essa ousadia.

Aos poucos, vou postar episódios sobre sua biografia e pequenos trechos das suas obras e poesias. Como estou lendo sobre os clássicos do que se convencionou chamar  literatura erótica - há tantas divergências sobre o termo! - , postarei um poema da poeta lusitana Maria Teresa Horta que, mesmo no período pós-salazarista, após a Revolução dos Cravos e sucessivos governos provisórios, sofreu processo judicial pela publicação de Novas cartas portuguesas*, um livro ousado, refinado, com escrita elegante, mas, por óbvio, transgressor a uma sociedade ainda abalada por muitos anos de rígida ditadura salazarista. Somente artistas, intelectuais e alguns poucos políticos a apoiaram, saindo em protesto a essa censura nas ruas de um Portugal em muito conservador. Para que possam saber mais a respeito de Maria Teresa Horta, cliquem aqui

* Escreveu a obra em conjunto com duas outras autoras: Maria Isabel Barreno Maria Velho da Costa. 

Publicarei, além disso, alguns posts com breves passagens com reflexões de Frida Kahlo, Lou Salomé, Isadora Duncan e Anaïs Nin. Sobre Florbela, busquem no índice do blog  o que até agora foi postado. Quanto aos comentários sobre Pequenos Pássaros, de Anaïs Nin, peço-lhes que aguardem mais uns dias, ok? Beijinhos!!!!! Tê! Boa noite!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Para que servem as paredes?

Imagem: Erik Johanssonaqui)
Uma parede serve para separar e esconder. Para contestar, escalar, pichar, fugir. Uma basta para enfeitar, colorir, surpreender, alegrar. E duas? Assim simétricas? Para organizar. As perpendiculares, para subornar, ou refletir. São suficientes três paredes caso se queira emboscar, violentar, chantagear. Entre quatro paredes é possível se (re)conciliar, decidir, abrigar, salvar, apoiar, segredar, amar. Nessas quatro, pode-se, ainda e contrariamente, prender, conspirar, torturar, guerrear. Para que servem as paredes? Paredes servem para ser destruídas e (re)construídas. Paredes são apenas paredes, mas podem não ser.

Por Teresinha Brandão
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Como John Lennon, "imaginem": sem fronteiras; como Orlandi, reflitam: “só há margens” – para que traços ou centro me pergunto????
Bjs e um ótimo início de semana! Tê!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

The sounds of silence


The sounds of silence

Hello darkness, my old friend,
I've come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone,
'Neath the halo of a street lamp,
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence.

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more.
People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence.

"Fools" said I, "You do not know
Silence like a cancer grows.
Hear my words that I might teach you,
Take my arms that I might reach you."
But my words like silent raindrops fell,
And echoed
In the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon god they made.
And the sign flashed out its warning,
In the words that it was forming.
And the sign said, "The words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls."
And whisper'd in the sounds of silence.


Simon & Garfunkel; letra: Simon; interpretação: Gregorian Chants)
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O Som do Silêncio


Olá escuridão, minha velha amiga
Eu vim para conversar com você novamente
Por causa de uma visão que se aproxima suavemente
Deixou suas sementes enquanto eu estava dormindo
E a visão que foi plantada em minha mente
Ainda permanece
Dentro do som do silêncio

Em sonhos sem descanso eu caminhei só
Em ruas estreitas de paralelepípedos
Sob a áurea de uma lamparina da rua
Virei minha gola para o frio e a umidade
Quando meus olhos foram esfaqueados pelo flash
De uma luz de néon
Que rachou a noite
E tocou o som do silêncio

E na luz nua eu enxerguei
Dez mil pessoas talvez mais
Pessoas conversando sem estar falando
Pessoas ouvindo sem estar escutando
Pessoas escrevendo canções
Que vozes jamais compartilharam
Ninguém desafiou
Perturbar o som do silêncio

"Tolos," digo eu, "vocês não sabem
O silêncio como um câncer cresce
Ouçam as palavras que eu posso lhes ensinar
Tomem meus braços que eu posso lhes estender"
Mas minhas palavras
Como silenciosas gotas de chuva caíram
E ecoaram no poço do silêncio

E as pessoas se reverenciaram e rezaram
Para o Deus de neon que elas criaram
E um sinal faiscou o seu aviso
Nas palavras que estavam se formando
E o sinal disse
"As palavras dos profetas
Estão escritas nas paredes do metrô
E na entrada dos edifícios
E sussurraram no som do silêncio"



É difícil que amanhã, com a família reunida, as crianças brincando (e gritando, rsrs!), entre outros "atropelos" da ceia de Natal - aos que a ela têm acesso _, consigamos nos lembrar de "perturbar o som do silêncio", refletir sobre as mudanças que estão ocorrendo no mundo e clamar pela tão necessária e urgente Paz Mundial. O vídeo escolhido por nós talvez antecipe hoje essa possibilidade. Muita Paz, Luz e Amor! Bjs carinhosíssimos! Jana, Tê e Augusto!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal e Freud, rsrsr!

O texto abaixo, publicado há bastante tempo na Folha, é de autoria de Voltaire de Souza, colunista do Folha de São Paulo. Trata-se de um pseudônimo utilizado por Marcelo Coelho, ensaísta, crítico e colaborador do jornal, autor de Vida Bandida.


Magia do Natal


Tempo de crise. Comércio nervoso. O sr. Beraldo tinha uma loja de artigos esportivos. "Neste Natal, precisamos de um marketing inovador". Contratou cinco morenas sensacionais. "Vocês ficam aqui. Vestidas de Papai Noel". Só um biquinizinho vermelho e branco. Entrou um rapaz chamado Gustavo. Sentou-se no colo da morena Kárin. Fez beicinho. "Quelo calinho". Começou a sugar o seio da moça. Beraldo expulsou os dois com um taco de beisebol. O casal apaixonado se recupera num pronto-socorro. O Natal é uma ocasião preciosa para se reviver a magia da infância.


Para saberem mais sobre o autor, acesse aqui.

Bem, nem todos os textos sobre Natal são singelos e inocentes. Voltaire adotou um estilo diferente de escrever sobre essa data: o irônico. Rsrs! Bjs nossos! Boa noite!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Hum... O mito da criação de Adão e Eva em tempos da Web...!

"Seja diferente: seja igual"

E já que o assunto é consumismo, moda, etc., cito um trecho de entrevista de Moacyr Scliar à revista Veja. Nela, o escritor criticava a homogeneização da moda, a supervalorização de um consumismo desenfreado e de mau gosto. Pois é. Aqui, a frase citada por Scliar foi tomada literalmente... Rsrsr! Boa noite e Bjs nossos!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Escrever cartinhas ao Papai Noel está "fora de moda"????!!!

Bem, essa não é a opinião partilhada pelas colaboradoras do Instituto Alana (aqui), uma das organizações mais combativas relacionadas ao consumismo e à infância. Leiam o texto e poderão ver o porquê. É sempre bom lembrar o assunto, sobretudo nesta época do ano e em tempos de publicidades como a do Laptop da Xuxa (aos que "tiverem estômago", há um vídeo sobre isso: aqui).


"Sobre os mais valiosos presentes

O ato de presentear pressupõe um vínculo anterior. Momentos especiais como o Natal nos levam a lembrar com carinho daqueles que fazem parte do nosso dia a dia. Aquelas pessoas que tornam nossa vida mais bonita e gostosa. O Natal é um momento muito especial de reflexão espiritual. É também o marco do fim de um ciclo, uma oportunidade de renovar os laços com aqueles que amamos, de fazer uma pausa para brindar pessoas especiais com as quais não podemos ter contato ao longo do ano.

Na medida em que o Natal se aproxima, vemos as vitrines das lojas se pintarem de vermelho e verde. Um turbilhão de mensagens publicitárias começa a nos assediar, convocando cada um de nós a comparecer ao shopping mais próximo, onde supostamente encontramos a magia e a felicidade que a data propõe. 

As crianças sofrem o mesmo impacto da publicidade, que se intensifica na medida em que não possuem experiência suficiente para compreender que a própria felicidade não depende necessariamente da aquisição de todos os impressionantes brinquedos que o mercado lhe oferece. 

Se é difícil para nós, adultos, resistir a algumas tentações e olhar criticamente para a publicidade, imagine para os pequenos! 

É claro que as lembranças de Natal simbolizam em diversos níveis o carinho que temos por aqueles que desejamos presentear. A expressão do afeto começa no instante em que pensamos no nosso amigo querido para escolher um agrado, que compartilhe de forma sincera nossos votos de felicidade. Escolhemos aquela peça especial que mais combina com a pessoa a quem se destina. Nesse momento, paramos para pensar sobre ela e sobre o vínculo que nos une. Isso torna o presente único e memorável. E o momento da troca registra, de fato, um ciclo; marca uma história.

Quando convidamos nossas crianças a escreverem para o Bom Velhinho uma carta de natal essa não deveria uma mera lista de presentes que gostariam de ganhar no Natal. Assim massificamos o processo de presentear, excluímos a possibilidade de surpreender e diminuímos de forma significativa o real sentido desta troca.

O presente da lista não reflete o vínculo, uma vez que ela é operada da mesma forma que uma lista de compras de supermercado, subtraindo a reflexão que o momento propõe. Esse processo leva a criança a criar expectativas sobre os bens que irá adquirir de modo que ela começa a se atentar para tudo aquilo que lhe é oferecido, brincando de listar os produtos que mais lhe impressionam. Esse consumo é sem reflexão, estimulado pela enorme vontade dos pais de atender ao capricho desejo de seus pequenos, com esperança vã de provar-lhes o quanto são queridos.

Se a lista de Natal cria demanda por objetos supérfluos, as cartinhas de Natal fazem a criança refletir sobre as relações, e até exercitarem a imaginação, entrando em contato com a magia da generosa figura do Papai Noel, o bom velhinho que distribui presentes para crianças de todo o mundo em uma única noite. Neste Natal, tente deixar de lado a listinha de presentes e ao invés de percorrer o shopping durante horas em busca dos itens da lista, dedique mais tempo para resgatar o significado do ato de presentear. Confeccione, junto às crianças, cartões de Natal ou lembrancinhas para brindar familiares e pessoas próximas que sejam importantes para sua família. Pense nessas pessoas amadas e dedique a elas suas melhores palavras e seus talentos mais singulares. Este será, sem dúvida alguma, o mais valioso presente.

Compartilhe essa energia rica e alegre com as crianças."

Por Roberta Nardi e Fernanda Becker, em 14/12/2010. 

Para conhecerem o trabalho desenvolvido pelo Projeto Espaço Alana, acessem aqui e "passeiem" demoradamente pelo site. Vale a pena...a menos que queiramos ver fotos cada vez mais chocantes como a acima e a do post anterior...! Desejamos-lhes uma excelente noite! Bjs "nossos"!

Breve cena de uma criança entediada


Assistindo à televisão - o que muito raramente o faço -, fiquei chocada com uma peça publicitária. Nela, uma criança, com uma determinação de adulto, com um linguajar e um modo de vestir também adultos (tudo isso, a um telespectador atento, tão-só postura aparente), olhava diretamente para mim e me dizia: "Se você está entendiada com as férias porque não tem o que fazer, assine "X", pois você terá acesso à internet livremente". Não é de deixar qualquer adulto indignado...? Não... Muitos adultos sequer notam o paradoxo da cena: a criança fazendo as vezes de adulto, e o adulto tratado como se criança o fosse. 

Em primeiro lugar, pergunto: a quem é dirigida essa publicidade e quem essa criança "representa"? É porta-voz de quem? Com tanta segurança ao falar - insisto, aparente! -, pareceu-me estar diante de um adulto. Tudo soava falso: o olhar da criança, seus gestos, suas roupas, sua pergunta. A pergunta, obviamente, ao se reportar o "tédio" das férias escolares, deveria ser dirigida às crianças. No entanto, quem pode "assinar 'X', senão um adulto? Diria que, em tese, a peça publicitária é dirigida às crianças, mas só em tese... Na verdade, eu estava diante de uma criança que, numa postura autoritária em relação aos adultos, ordenava-lhes: "Assinem!". Por que uma criança? Porque ela tem sido o alvo preferido da mídia quando se trata da venda de produtos, de estilos de vida, de valores. Afinal, quem resiste ao apelo de uma carinha "tão bonitinha... parece um adulto falando!"?

Desliguei-me da tevê após brevíssima mas profunda intervenção da tal criança e comecei a rememorar minha infância... Na casa da minha avó portuguesa, Conceição, brincava com minha irmã e meus dois primos. Onde brincávamos? No telhado... Sim, no telhado da casa, rsrs!! Adorávamos essa aventura e não reclamávamos de tédio em momento algum. Depois, eu e minha irmã sentávamos em um tapete colocado sobre os degraus de uma longa escadaria e meus dois primos iam descendo à frente puxando o tapete. Invertíamos: eles sentavam e nós os puxávamos. Como sempre alguém balançava, caía ou desistia no meio do caminho, ríamos muito! Mais tarde, conheci a Luciane e, na casa do meu avô Joaquim, eu e ela acordávamos cedinho, pegávamos nossos brinquedos - lego, bonecas, jogos, bicicleta - e só os deixávamos de lado na hora de dormir. Era assim nos finais de semana e durante as férias.

Brinquei dessa forma até por volta dos doze anos quando, então, comecei a despertar para outros interesses da pré-adolescência (ainda existe essa fase...?). Na pré-adolescência, passava alguns dias das férias na "Colônia de férias do vô Aimoré", como ele chamava o chalé verde com o pátio enorme, a parreira de uvas, o jasmineiro... Quando não estava em nenhum desses lugares, estava em casa: lia, brincava com minhas irmãs, com as/os vizinhas/os, enfim, curtia o "tempo ocioso", para mim, sagrado.

Voltando à propaganda da televisão e a um dos questionamentos iniciais - "Afinal, quem resiste ao apelo de uma criança 'tão bonitinha... parece um adulto falando!'?" - pergunto a vocês, leitores: e se nós resistirmos...? Que tal? Assim não correremos o risco de o conteúdo da imagem deste post (que, aliás, já é chocante!) sobrepor-se ao conteúdo da ilustração do post acima . Pensem nisso... Bj, Tê!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Ela adora ler...!

"Psiu! Oi, moça!... Concentrada no coração ou no telefone?" 

"Ah, tá... na leitura!" 
Rsrsr! Simples assim! Há imagens que falam...! E já que o assunto é leitura  - visual e auditiva  -, não percam o vídeo de amanhã! Desejamos uma ótima noite! Augusto, Tê e Jana!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Histórias de calcinhas e calçolas


Olá! A animação foi feita por Priscila Pacheco. Interessante, não? Bjs especialíssimos "nossos" e um ótimo sábado!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Presente de amante


"Ela está perto de meu coração, tão linda quanto uma flor no jardim; é suave, como é o descanso para o meu corpo. O amor que lhe tenho é minha vida fluindo plena, como corre o riacho nas manhãs de outono, em sereno abandono. Minhas canções são únicas como meu amor, como é único o murmúrio de um rio que canta com todas suas ondas e correntes.

Na luz desta manhã de primavera, canta, poeta, daqueles que passam sem se deter, que vivem sorrindo sem olhar para trás, que florescem em uma hora de deleite sem sentido, e se entristecem num instante, sem pensar. Não fique calado, recitando o rosário de suas lágrimas e alegrias que passaram; não pare para colher as pétalas caídas das flores; não corra atrás do que é enganoso, por desconhecer o seu sentido. Deixe as coisas insignificantes de sua vida onde estão, para que a música surja de suas profundezas.

Durante a noite, no jardim, lhe ofereci o vinho espumante de minha juventude. Você bebeu, fechou os olhos e sorriu, enquanto eu levantei seu véu, soltei suas tranças e deitei em meu peito seu rosto docemente silencioso; durante a noite, quando o sonho da lua embalava o seu sono. Agora, na calma refrescada do campo, você caminha em direção ao templo de Deus, banhada e vestida de branco, com uma cesta de flores na mão. Eu, à sombra da árvore, deito a cabeça; na calma refrescada do campo, junto ao caminho solitário do templo*."

Por Rabindranath Tagore


* Tagore perdeu cedo a esposa - contava a jovem com apenas 29 anos -, além dos dois filhos do casal. Esse luto, uma mescla de tristeza profunda e melancolia, marca definitivamente sua poesia amorosa.

Rabindranath Tagore: o poeta do amor

Imagem: Rabindranath Tagore, por Elizabeth Brunner (aqui)

A primeira vez que ouvi falar do místico, poeta, músico e pintor indiano Rabindranath Tagore foi em 1986, ao ler O Correio (Unesco), em edição comemorativa ao 40º aniversário, jul/ago, da revista. Havia uma foto de um homem com longa barba, cercado de crianças em uma escola "aberta" no meio de um campo, uma das muitas escolas que fundou para alfabetizar os camponeses e seus filhos, na Índia. Transcrevo, num outro post passagens desse texto escrito por Satyajit Ray, cineasta responsável por, a pedido do governo da Índia naquela ocasião, produzir um documentário a fim de comemorar o centenário de nascimento de Tagore. 

Essa impressão inicial me revelou um Tagore engajado política e socialmente, mas ainda não conhecia seus lindos poemas - os místicos e os de amor, sendo os últimos os que mais me agradam. Neles, há uma mistura de um amor profundo, dotado de forte admiração e respeito à sua amada. A par disso, a paixão que se manifesta na sua poesia amorosa é bastante singular: não se trata de um amor urgente e movido pelos impulsos, pela pulsão sexual incontrolável;  antes, marcado  por um erotismo espontâneo, suave, delicado, sensível... enfim, tocante! 

Muitos são os poetas designados "Poeta do Amor". Tagore é um deles. Simples assim. Também cantou em versos o amor de Xah-Jahan e seu "refúgio de amor", Taj Mahal, atualíssima na voz de Jorge Benjor. Se quiserem conhecer um pouco das impressões a que me refiro, leiam o post seguinte com um trecho da sua obra em prosa. Bjs e um excelente final de semana! Augusto, Jana e Tê!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O besteirol na televisão: TV Pirata

Vídeo: TV Pirata, 1989
Muitos de vocês, leitores, talvez não se lembrem, por motivos vários, mas, na década de 80, no Brasil, surgiu ― ou seria apenas uma recriação? ― um novo estilo de se fazer teatro e televisão: o besteirol.

A pesquisadora Eudinyr Fraga, no Dicionário do teatro brasileiro, da Editora Perspectiva, entende por tal estilo a

"Denominação dada a um conjunto de peças surgidas a partir da década de 1970, no Rio de Janeiro e São Paulo, composta de pequenos esquetes, piadas, jogos de palavra e situações de nonsense. Tudo é motivo para a sátira, desde os modismos verbais até os comportamentais (...) As peças se articulam em torno do ator, apelando para a sua capacidade de improvisar (ou mais que isso, de dar a impressão de).”


Tanto no teatro, quanto na televisão, Miguel Falabella é sempre apontado como um nome conhecido quando o tema é mencionado. Por força da impressão de banalidade e riso fácil, o ator explica que, na época, muitos críticos rotularam esse novo estilo de “alienante” pois, num período de tentativa de democratização do País, sobretudo no teatro, era preciso ser “engajado” política e artisticamente. O ator explica:

"Alienados seríamos se não refletíssemos sobre a frenética sociedade de consumo em que nos tranformamos. Alienados seríamos se ficássemos restritos aos clássicos, aos grandes autores, em montagens bem-comportadas, para ganhar o beneplácito dos senhores da cultura. Levamos a chanchada e a paródia à cena, sim. Com muito prazer. Porque estamos cada vez mais atentos à realidade à nossa volta."

Na verdade, o besteirol, numa relação interativa, propicia um diálogo com sua plateia. Esse tipo de atuação exige inteligência, sensibilidade, criticidade e informação, qualidades necessárias ao seu real entendimento. Requer um público atento às inúmeras associações sutis, às referências a fatos/coisas aparentemente sem ligação, às críticas disfarçadas de “pura inocência”. O humor é, desse modo, concebido na sua natureza anárquica: rompe com dogmas, padrões preestabelecidos, inverte, subverte, sem se preocupar com preconceitos de toda ordem.

Limites? Hum ... nem mesmo na habilidade de improvisação... Talvez os limites da “insustentável leveza do ser”...! Em outros termos: o esgotamento/excesso da ironia “suportada” pelo ser humano.

No teatro, Trair e coçar... é só começar já está em cartaz há cerca de vinte anos. Na televisão, Casseta & PlanetaSai de Baixo, entre outros, são exemplos do gênero.

Como a nostalgia às vezes bate à minha porta, selecionei um vídeo de um programa ao qual assistia sempre, o TV Pirata, cuja estreia se deu em 1988. Nele, os "pobres", ao se apropriarem do discurso dos "ricos" ("Do que estão reclamando? Olha que vida boa a deles [dos pobres]! Recebem tudo nas mãos e nunca estão satisfeitos!", etc, etc), o subvertem: tomam literalmente o discurso dos "ricos" e o manifestam de forma invertida. É impossível não rir, rsrsr!


Se gostaram desse tipo de humor, cliquem aqui. No site, há informações detalhadas sobre o programa. Vale a pena! Voltaremos a postar sobre isso. Bjocas! Tê, Jana e Augusto!

sábado, 27 de novembro de 2010

Nelson Rodrigues: e a vida como é?

Imagem: Os amantes, de René Magritte (aqui)

“Os amantes se amam cruelmente/ E com se amarem tanto não se veem/ Um se beija no outro, refletido” (Carlos Drummond de Andrade)


Foi ao ler um comentário interessante, feito por um anônimo, no post Amor à Nelson Rodrigues (aqui), que associei seu conteúdo com o da imagem acima (sugiro conferirem algumas informações sobre essa pintura: aqui) e o texto de Nelson Rodrigues. Apresento o comentário primeiramente e, após, a crônica do escritor brasileiro.

"Não é à toa que entre o carrasco e a vítima se cria uma história de amor. Assim se pactuam determinados matrimônios, cuja história de crueldade se repete, mas o inesperado surge quando se amam. Por culpa, fazem o melhor de tudo, mas pela mesma culpa, seguem se maltratando. O sentimento de culpa forma seres: desde o infeliz até o criminoso!" (comentário de anônimo).


Escorpião de banheiro

Viviam como cão e gato. E eram brigas diárias e tremendas. Numa das vezes, foi até interessante: Belchior deu um murro, de mão fechada, na testa de Elvira. A pequena virou por cima das cadeiras. Ergueu-se, ainda vesga da pancada e da queda. Mas não teve dúvidas maiores – apanhou o aparelho de rádio e o varejou contra Belchior. Este se abaixou e o projétil acertou em cheio a cristaleira, com um estrondo inimaginável. A essa altura dos acontecimentos, os vizinhos em massa invadiram a casa. A própria radiopatrulha encostava na porta. Subjugados, os cônjuges ainda esperneavam. Belchior dava arrancos frenéticos:
– Te arrebento! Te parto a cara!
E ela, feito uma fúria:
– Palhação! Cretino!

Para os vizinhos, a pancadaria recíproca e cotidiana era motivo de fascinação e, além disso, de náusea. Há cinco anos levavam essa vida e ninguém entendia porque continuavam juntos. Ponderaram:
– Vocês não combinam. Por que não se separam?
Ambos concordavam:
– É o golpe! É o golpe!

Mas a separação vinha sendo adiada há semanas, meses e anos. Dir-se-ia que, apesar das incompatibilidades, existia entre os dois um vínculo qualquer, misterioso e fatal. Por fim, tanto os parentes de Belchior como os de Elvira já rosnavam:
– Isso é falta de vergonha! De brio! No duro que é!

Marina

Até que, um dia, Belchior conheceu Marina. Com esse nome de letra de Dorival Caymmi, era um amor de pequena, miúda e linda, doce de sentimentos e de modos e, de resto, educadíssima. Acostumado com Elvira, que era violenta, desbocada e neurastênica, adorou a suavidade de Marina. No segundo ou terceiro encontro, a menina perguntou:
“– Você é casado?”. Ele hesitou na resposta. Mas tomou coragem e disse:
– Olha, meu anjo. Quero ser leal contigo. Não sou casado, mas vivo com uma pessoa assim, assim, separada do marido. Compreendeu?
– Compreendi.
E ele:
– Aliás, quero te dizer o seguinte:
– Essa pessoa é uma jararaca, uma lacraia, um escorpião de banheiro. Não gosta de mim, nem eu dela. Antes de te conhecer, eu já estava resolvido a chutá-la. E agora que te conheço, mais do que nunca, naturalmente.

Marina deu-se por satisfeita. No dia seguinte, Elvira saiu depois do almoço. Quando voltou, ao cair da noite, viu escrita, na parede, a lápis, com a letra do marido, a seguinte mensagem: “VAI-TE PARA O DIABO QUE TE CARREGUE. ADEUS!”.

Elvira, que abominava o companheiro, devia achar o fato uma delícia. Em vez disso, porém, rolou no chão, espumando em ataques. Quando os vizinhos entraram de roldão, atraídos pela gritaria, ela apontou a parede:
“– Olha o que aquele cachorro escreveu!”. Os vizinhos leram e releram atônitos. 
Elvira soluçou:
“– Mas ele há de voltar! – E repetia com uma certeza fanática: “– Há de voltar!”

Felicidade

Consumada a separação, a felicidade de Belchior foi uma dessas coisas convulsas e patéticas. Como primeira medida, bateu o telefone para Marina:
– Estou livre! Livre!
Do outro lado da linha, a pequena chorava:
– Deus te abençoe!
De noite, Belchior, ainda delirante, reuniu os amigos no bar. Bebeu toda a noite. Fez, aos berros, as confidências mais comprometedoras. Em dado momento, com o olho injetado e a boca torcida, esbravejava, numa reminiscência de leitura:
A consciência não existe! A única consciência que eu reconheço é o medo da polícia! – Alargou o colarinho, afrouxou o laço da gravata e uivou: – Foi o medo da polícia que me impediu de matar Elvira!
Voltou para casa carregado e vomitando nos amigos.

O anjo

Lera na adolescência um romance ordinaríssimo, que se chamava Anjo de redenção. E agora, vendo Marina e sua meiguice consoladora, fez sua tentativa literária ao dizer:
“– Tu és o meu anjo de redenção!”. Ela baixou os olhos, arrepiada, e disse:
– Eu faço o que posso!
Apresentou a menina aos pais. E, depois, veio sôfrego saber a opinião dos velhos. A mãe beijou-o na testa:
– Uma simpatia!
E o pai, grave:
– Dessa gostei!

Mais quinze dias e houve o pedido oficial. Na tarde em que ficaram noivos, Belchior levou a pequena para a varanda; dramatizou:
“– Quando te conheci, estava na seguinte situação: ou matava ou me matava. Tu me salvaste a vida.”

O idílio

Pareciam feitos um para o outro. De quinze em quinze minutos, Belchior descobria uma nova afinidade com a menina. De resto, coincidiam em tudo, de uma maneira impressionante. Gostavam dos mesmos filmes, das mesmas músicas, das mesmas paisagens e dos mesmos doces. Ele, que fora tão infeliz na sua anterior experiência sentimental, a ponto de quebrar a cabeça da amante com um rádio de pilha, agora parecia navegar num mar ou, por outra, num lago azul. Viviam sem rixas, sem bate-bocas, numa calma talvez parecida com o tédio. Pouco a pouco, porém, sem que Belchior percebesse, uma certa melancolia se insinuou na sua alma. A noiva acabou estranhando:
– Estou te achando meio assim, triste.
– Eu?
– Você. Anda meio esquisito. Que é que há?
Protestou, rubro:
– Esquisito por quê? Pelo contrário. Nunca me senti tão bem. Pigarreia e exagerou:
“– Eu sou o sujeito mais feliz do mundo. Tenho você, quer dizer, tenho tudo.”


A outra


E, de fato, Belchior era ou devia ser o sujeito mais feliz do mundo. Amava e era amado, livrara-se de uma mulher histérica e desequilibrada, que lhe arruinava a vida, a alma, o fígado. Pois bem. Apesar disso, ou por isso mesmo, deu para andar deprimido, insatisfeito. Explicava vagamente:
“– Deve ser esgotamento.”. Nas proximidades do casamento, encontrou-se com um velho amigo, o Peçanha. Este o chamou de lado:
– A Elvira anda jurando que você volta! Diz que quer ser mico de circo se você não voltar!
Pulou, malcriadíssimo:
– Ela é besta! Não quero ver essa cara nem pintada! Isola!
Estaria certa? Estaria errada? Ninguém podia saber. Havia, porém, quem julgasse ver, no caso Belchior e Elvira, um desses sombrios mistérios do sexo, sem explicação possível.

Noite de núpcias

Finalmente, deu-se o casamento. Na igreja, quando Marina passou a caminho do altar, houve um deslumbramento. Na sua graça frágil e intensa, era uma imagem realmente inesquecível. Após a cerimônia, voltaram os dois para a casa dos pais de Marina, onde passariam a residir. Às onze horas, despediu-se o último convidado. Os velhos, depois de abençoarem o casal, recolheram-se. Marina, transfigurada, sussurrou: “Espera um pouco que eu te chamo, Belchior. Espera.”

Nesse instante, bateu o telefone e Belchior, surpreso e inquieto, foi atender. Era Elvira dizendo:
– Olha! Eu te espero. A chave está debaixo do tapetinho. Vem, agora!
E desligou. Belchior encostou-se à parede, com a vista turva e as pernas bambas. Houve, nele, uma brusca e violenta nostalgia da mulher que era o seu ódio e seu desejo. Naquele justo momento Marina entreabriu a porta e avisou:
– Pode vir, meu bem!

Ele, porém, não pensava mais na noiva. Dir-se-ia um magnetizado. Sem rumor, deslizou pela escada, rente à parede. Meia hora depois, desceu de um táxi na porta da antiga residência. Insinuou a mão debaixo do capacho, apanhou a chave. Entrou. Em pé, no meio da escada, com o quimono rosa em cima da camisola, os pés nas sandálias de arminho, Elvira o esperava. Não houve uma palavra entre os dois. Belchior enlaçou a pequena e, com raiva e gana, a beijou muitas vezes. Então, Elvira riu, pendendo a cabeça:
“– Meu!”.
E foi esse orgulho que a perdeu. As mãos de Belchior desceram e se fecharam sobre o pescoço macio. Apertou até o fim, sem saber que a estrangulava, sem saber que a estava matando. Depois, abraçado ao cadáver, disse arquejante:
– Não te enterrarei nunca! Ficarás comigo aqui!
E pousou a cabeça sobre o coração, que não batia mais.

Um dos contos de A vida como ela é..., por Nelson Rodrigues


Há o que se pensar sobre a vida, não? Acima, opiniões – não obrigatoriamente as nossas. E para vocês: como é a vida...? Bjocas e um excelente sábado! Augusto, Tê e Jana!