quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os múltiplos sentidos dos corpos (ou a estética que fala)

A África continua sendo vista não só por capitalistas sedentos de novas fontes de renda, mas também por alguns intelectuais de esquerda mal informados, como um paraíso exótico e extravagante, pronto a ser aqui na terra desfrutado, apreciado, saboreado. Corrobora-se, assim, a tese do "bom selvagem"*. Ora, até então, nenhuma novidade pois talvez seja justamente essa tese que garante a exploração sempre ilimitada - principalmente econômica - de outras nações ocidentais mais ricas sobre as do continente africano, e mais, de países africanos sobre outros também países africanos.


Entretanto, essa "passividade" do "bom selvagem africano" foi questionada pelas lentes atentas e críticas de Hans Sylvester. Até me deparar com o livro  de Sylvester - Les peuples de l'Omo**sequer tinha ouvido falar da existência do território e das tribos Surma e Mursi, habitantes do entorno do Rio Omo, na fronteira com a Etiópia, na África Oriental. Menos ainda sabia de seus costumes e de sua maneira de (sobre)viver.   
O livro mostrou-me que, longe dessa passividade que lhes é atribuída, seus habitantes se veem constantemente envolvidos em guerrilhas pois o território dessas tribos configura-se um espaço claramente delimitado do comércio de armas e marfim. Mesmo diante das possibilidades de tantos conflitos, é de se admirar a preocupação das tribos com questões estéticas, concordam? Mas não creio ser exatamente assim. As fotos revelam um povo bastante vaidoso com seu visual, porém, seria esse realmente ou tão-só o motivo de se enfeitar com tanto cuidado...? Aliás, por que desde sempre a humanidade pinta seus rostos e corpo, tatua-se, enfeita-se? Quais sentidos as tribos desejam expressar com essa atitude? Apenas prazer? Essa é a ideia que inferi da leitura da obra. Bem, pode não ser a única... E os motivos políticos ou as políticas de se "dizer" algo com tais looks?, acrescento. Improváveis?
No livro, ao se evidenciarem as imagens,questiona-se: como fazem para criar seus visuais? Segundo as informações colhidas, muitos nativos, ao longo do tempo, passaram a usar peles de animais obtidas em suas caças para transformá-las em lindas caneleiras. Como a região - vulcânica - oferece-lhes um amplo conjunto de pigmentos multicores, usam-nos para pintarem seus corpos, valendo-se apenas das pontas dos dedos e de um pouco de argila. Pintam a si próprios e aos outros numa atitude lúdica, cujos resultados expressam intensa beleza e sensualidade.
Às vezes, um tronco, um galho, uma flor, ou mesmo uma folha servem como acessórios para adornar a cabeça, as orelhas, o pescoço. Noutras, isso se torna dispensável, como na foto imediatamente abaixo. Todo esse envolvimento com os recursos naturais fazem do corpo uma extensão da própria natureza. Mesclam-se o humano, o vegetal e animal em perfeita harmonia.
Os corpos são a "tela"; os recursos da natureza, a "tinta"; e os dedos, os "pincéis", o instrumento. E assim, vão expressando sentidos e criando lindas obras de arte...! Quem manteve contato com os nativos afirma não haver uma "teoria" capaz de explicar sua arte. Chegam a dizer que, ao vê-los pintar seus corpos, ficaram extasiados pois o fazem com uma velocidade comparada com a que Jackson Pollock*** pintava seus quadros!
Mas voltemos ao questionamento inicial: que sentidos expressam seus corpos...? Ou ainda: por que os enfeitam dessa forma? Difícil explicar... os "homens de Kibish", como também são conhecidos, têm sua ascendência em ancestrais de 120.000 anos. Sem conhecer a história desses grupos, que se têm mantidos isolados da civilização, tanto ocidental quanto oriental, como saber? Todo corpo tem sua história, não nos esqueçamos disso...
Hans Sylvester compilou as fotografias em forma de livro, como já mencionei. Sem dúvida, um trabalho riquíssimo, mas é possível que se torne no futuro apenas um acervo a ser guardado em prateleiras de bibliotecas ou em materiais digitalizados.


A justificativa para a afirmação anterior reside no fato de, em nome do progresso, a energia elétrica se fazer necessária. Até aí tudo bem, desde que houvesse progresso mas a cultura desses povos fosse preservada.
Projeto há para se construir e instalar uma hidrelétrica capaz de gerar energia para a capital da Etiópia, Adis Abeba. Entretanto, o  governo desse país não tem demonstrado preocupação com os efeitos desastrosos que tal projeto possa vir a causar sobre as tribos.
Pergunto: não haveria outras alternativas de se gerar essa energia necessária sem acarretar a possível extinção ou "contaminação" das tribos com grupos já "civilizados"? Os representantes dos governos se interessam por essas alternativas? Parece que não. Lamentável a ideia de "progresso" dos chefes de governo de alguns países...
O que fazer? Para os mais céticos em relação a mudanças sociais, resta-lhes admirar as deslumbrantes fotos de Hans Sylvester... E aos outros...? Quem sabe...?
Por fim, algumas informações sobre o fotógrafo. Hans Sylvester nasceu em Lorrach, Alemanha, em 1938. Sua obra já foi exposta em diferentes museus e espaços culturais de várias partes do mundo. Ao optar pelo livro como meio de compilar sua obra, Sylvester procura atingir um número maior de apreciadores. Recebeu uma medalha de bronze em 1975, na Feira do Livro de Leipzig (Alemanha) e o prêmio Águia de Ouro, em 1976, na Feira do Livro de Nice (França). As fotos deste post, presentes no livro Les peuples de l'Omo, renderam-lhe a premiação do Livro do Ano da Fotografia, em 2006, Paris.

* Sobre o mito do bom selvagem: cliquem aqui.
**Para redigir este post, consultei a versão em francês do livro Les peuples de l'Ómo, do autor citado.As imagens foram extraídas da internet.
*** Sugiro assistirem ao filme Pollock, que mostra a trajetória pessoal e artística do pintor.


Desejamos um excelente final de quinta-feira! Bjssss! Jana e Tê! Augusto manda bjs da Bahia! Uauuuu! 

Nenhum comentário: