segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Das mulheres e dos homens: (des)amor e (des)sexualidade

Imagem: de Ognian Kouzmanov (aqui)

Sexta-feira
Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clitóris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.
Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Por Marina Colasanti (aqui)


Lembro-me de que, quando li A Primeira Vez... à Brasileira, Ed. Nosso tempo, 1979, da escritora e feminista Heloneida Studart e de Wilson Cunha, dois aspectos na obra me sensibilizaram: a seriedade do trabalho realizado pelos organizadores e a maneira opressiva como tanto homens quanto mulheres lidam com sua sexualidade _ termo a ser diferenciado de vida ou relação sexual _, sobretudo na primeira experiência sexual. O livro relata, em forma de depoimentos, a primeira relação sexual de personalidades tais quais Elke Maravilha, Ney Latorraca, Sandra Bréa, Marília Pêra, Di Cavalcanti, Othon Bastos, entre outras.

Não pude, ao me deparar com o poema acima, deixar de associá-lo às narrativas do livro... O depoimento de Othon Bastos foi marcante, sensível, assim como o de outras figuras masculinas. Depoimentos doídos, sofridos, depoimentos de quem tão-só deseja livrar-se de um passado assustador...

Apesar de ainda haver muito radicalismo em determinados grupos de movimentos feministas em todo o mundo, pergunto-me: e os homens são apenas "vilões" desse espetáculo grotesco em que se transformou a vida sexual de muitas pessoas? Não..., não acredito nisso. Quero crer na possibilidade de superação da "guerra sexista" desses grupos radicais.

Com todo o respeito merecido pelas conquistas de muitas mulheres que abalaram as relações do patriarcalismo opressor, romperam com a tirania de leis intransigentes, de tabus e dogmas, tornando-se precursoras e geradoras de novas ideias mais humanistas e humanizadoras, manifestas nas novas práticas sociais, políticas e culturais, quero ter fé em que, um dia talvez, homens e mulheres sejam "apenas" pessoas... É uma utopia? É. Simples assim. Quanto ao livro, leitura recomendada. Grande bj, Tê!

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