sábado, 30 de outubro de 2010

Micronarrativas: uma introdução

Imagem: Esculturas microscópicas, trabalho realizado por Willard Wigan. As esculturas, tão pequenas, são expostas em pregos, parte de agulhas, enfim, objetos minúsculos. Vale a pena conferir o site do artista (aqui).

Não é de hoje que muitos teóricos da literatura insistem em mostrar  _ e com absoluta razão! _ o quanto é difícil e infrutífera a tentativa de se classificarem e se definirem certos gêneros do discurso, como a poesia e o conto. Mais arriscado parece ser o caso das micronarrativas, que muitos (equivocadamente?) denominam minicontos.

Ainda assim parece interessantes algumas considerações acerca das micronarrativas, gênero caracterizado pela concisão brevidade, estruturado numa linguagem densa – contida, com muita economia de palavras –, coesa e intensa. A dimensão de tais contos é, portanto, compreendida pela sua profundidade temática


Nesse gênero textual, podemos observar os seguintes elementos: personagem(ns), que, numa sucessão de ações interligadas (explícita ou implicitamente), desencadeiam um conflitonuma narrativa que contém em si uma história aparente (ocultação) e uma explícita(revelação)*. É como se o conto manifestasse duas histórias: a visível e a secreta. Isso se evidencia nos textos abaixo, nos quais a intensidade se faz notar naquilo que não é dito. A tensão é, portanto, fundamental. O efeito da narrativa não se manifesta pela extensão, mas pela intensidade, pela elipse, pelo corte, o não-escrito. O foco narrativo geralmente é marcado pela 1ª ou 3ª pessoas do singular, ora com o emprego do discurso direto, ora, indireto.

Como exemplos, os microcontos seguintes.

Dalton Trevisan: “Não fale, amor. Cada palavra, um beijo a menos”.

Ou o do Fernando Bonassi, intitulado : “Se eu soubesse o que procuro com esse controle remoto...”.

Ou ainda, o de Millôr, cujo título _ Emocionante relato do encontro de Teodoro Ramirez, comandante de um navio misto, de carga, passageiros e pesca, do Caribe, no momento em que descobriu que a bela turista inglesa era, na verdade, uma perigosa terrorista cubana, que tentava penetrar num porto do sul da Flórida para dinamitar a alfândega local, e procurou forçá-la a favores sexuais _ é muito mais extenso do que o próprio conto, este composto de uma linha apenas: “ _ Capitão, tem que me estuprar em 1/2 minuto; às 8, seu navio explode”.


Hemingway, por sua vez, escreveu uma história com seis palavras e chamou-lhe o seu melhor trabalho de sempre: "Vendem-se: sapatos de bebê, nunca usados".

Sugiro também acessarem a página de Samir Mesquita, outro escritor que aprecia os microtextos e mantém um site na internet com dois livros nela publicados (aqui).

E vocês, acham difícil escrever assim? Que tal arriscarem...? Há espaço nos comentários...!

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