sábado, 27 de novembro de 2010

Nelson Rodrigues: e a vida como é?

Imagem: Os amantes, de René Magritte (aqui)

“Os amantes se amam cruelmente/ E com se amarem tanto não se veem/ Um se beija no outro, refletido” (Carlos Drummond de Andrade)


Foi ao ler um comentário interessante, feito por um anônimo, no post Amor à Nelson Rodrigues (aqui), que associei seu conteúdo com o da imagem acima (sugiro conferirem algumas informações sobre essa pintura: aqui) e o texto de Nelson Rodrigues. Apresento o comentário primeiramente e, após, a crônica do escritor brasileiro.

"Não é à toa que entre o carrasco e a vítima se cria uma história de amor. Assim se pactuam determinados matrimônios, cuja história de crueldade se repete, mas o inesperado surge quando se amam. Por culpa, fazem o melhor de tudo, mas pela mesma culpa, seguem se maltratando. O sentimento de culpa forma seres: desde o infeliz até o criminoso!" (comentário de anônimo).


Escorpião de banheiro

Viviam como cão e gato. E eram brigas diárias e tremendas. Numa das vezes, foi até interessante: Belchior deu um murro, de mão fechada, na testa de Elvira. A pequena virou por cima das cadeiras. Ergueu-se, ainda vesga da pancada e da queda. Mas não teve dúvidas maiores – apanhou o aparelho de rádio e o varejou contra Belchior. Este se abaixou e o projétil acertou em cheio a cristaleira, com um estrondo inimaginável. A essa altura dos acontecimentos, os vizinhos em massa invadiram a casa. A própria radiopatrulha encostava na porta. Subjugados, os cônjuges ainda esperneavam. Belchior dava arrancos frenéticos:
– Te arrebento! Te parto a cara!
E ela, feito uma fúria:
– Palhação! Cretino!

Para os vizinhos, a pancadaria recíproca e cotidiana era motivo de fascinação e, além disso, de náusea. Há cinco anos levavam essa vida e ninguém entendia porque continuavam juntos. Ponderaram:
– Vocês não combinam. Por que não se separam?
Ambos concordavam:
– É o golpe! É o golpe!

Mas a separação vinha sendo adiada há semanas, meses e anos. Dir-se-ia que, apesar das incompatibilidades, existia entre os dois um vínculo qualquer, misterioso e fatal. Por fim, tanto os parentes de Belchior como os de Elvira já rosnavam:
– Isso é falta de vergonha! De brio! No duro que é!

Marina

Até que, um dia, Belchior conheceu Marina. Com esse nome de letra de Dorival Caymmi, era um amor de pequena, miúda e linda, doce de sentimentos e de modos e, de resto, educadíssima. Acostumado com Elvira, que era violenta, desbocada e neurastênica, adorou a suavidade de Marina. No segundo ou terceiro encontro, a menina perguntou:
“– Você é casado?”. Ele hesitou na resposta. Mas tomou coragem e disse:
– Olha, meu anjo. Quero ser leal contigo. Não sou casado, mas vivo com uma pessoa assim, assim, separada do marido. Compreendeu?
– Compreendi.
E ele:
– Aliás, quero te dizer o seguinte:
– Essa pessoa é uma jararaca, uma lacraia, um escorpião de banheiro. Não gosta de mim, nem eu dela. Antes de te conhecer, eu já estava resolvido a chutá-la. E agora que te conheço, mais do que nunca, naturalmente.

Marina deu-se por satisfeita. No dia seguinte, Elvira saiu depois do almoço. Quando voltou, ao cair da noite, viu escrita, na parede, a lápis, com a letra do marido, a seguinte mensagem: “VAI-TE PARA O DIABO QUE TE CARREGUE. ADEUS!”.

Elvira, que abominava o companheiro, devia achar o fato uma delícia. Em vez disso, porém, rolou no chão, espumando em ataques. Quando os vizinhos entraram de roldão, atraídos pela gritaria, ela apontou a parede:
“– Olha o que aquele cachorro escreveu!”. Os vizinhos leram e releram atônitos. 
Elvira soluçou:
“– Mas ele há de voltar! – E repetia com uma certeza fanática: “– Há de voltar!”

Felicidade

Consumada a separação, a felicidade de Belchior foi uma dessas coisas convulsas e patéticas. Como primeira medida, bateu o telefone para Marina:
– Estou livre! Livre!
Do outro lado da linha, a pequena chorava:
– Deus te abençoe!
De noite, Belchior, ainda delirante, reuniu os amigos no bar. Bebeu toda a noite. Fez, aos berros, as confidências mais comprometedoras. Em dado momento, com o olho injetado e a boca torcida, esbravejava, numa reminiscência de leitura:
A consciência não existe! A única consciência que eu reconheço é o medo da polícia! – Alargou o colarinho, afrouxou o laço da gravata e uivou: – Foi o medo da polícia que me impediu de matar Elvira!
Voltou para casa carregado e vomitando nos amigos.

O anjo

Lera na adolescência um romance ordinaríssimo, que se chamava Anjo de redenção. E agora, vendo Marina e sua meiguice consoladora, fez sua tentativa literária ao dizer:
“– Tu és o meu anjo de redenção!”. Ela baixou os olhos, arrepiada, e disse:
– Eu faço o que posso!
Apresentou a menina aos pais. E, depois, veio sôfrego saber a opinião dos velhos. A mãe beijou-o na testa:
– Uma simpatia!
E o pai, grave:
– Dessa gostei!

Mais quinze dias e houve o pedido oficial. Na tarde em que ficaram noivos, Belchior levou a pequena para a varanda; dramatizou:
“– Quando te conheci, estava na seguinte situação: ou matava ou me matava. Tu me salvaste a vida.”

O idílio

Pareciam feitos um para o outro. De quinze em quinze minutos, Belchior descobria uma nova afinidade com a menina. De resto, coincidiam em tudo, de uma maneira impressionante. Gostavam dos mesmos filmes, das mesmas músicas, das mesmas paisagens e dos mesmos doces. Ele, que fora tão infeliz na sua anterior experiência sentimental, a ponto de quebrar a cabeça da amante com um rádio de pilha, agora parecia navegar num mar ou, por outra, num lago azul. Viviam sem rixas, sem bate-bocas, numa calma talvez parecida com o tédio. Pouco a pouco, porém, sem que Belchior percebesse, uma certa melancolia se insinuou na sua alma. A noiva acabou estranhando:
– Estou te achando meio assim, triste.
– Eu?
– Você. Anda meio esquisito. Que é que há?
Protestou, rubro:
– Esquisito por quê? Pelo contrário. Nunca me senti tão bem. Pigarreia e exagerou:
“– Eu sou o sujeito mais feliz do mundo. Tenho você, quer dizer, tenho tudo.”


A outra


E, de fato, Belchior era ou devia ser o sujeito mais feliz do mundo. Amava e era amado, livrara-se de uma mulher histérica e desequilibrada, que lhe arruinava a vida, a alma, o fígado. Pois bem. Apesar disso, ou por isso mesmo, deu para andar deprimido, insatisfeito. Explicava vagamente:
“– Deve ser esgotamento.”. Nas proximidades do casamento, encontrou-se com um velho amigo, o Peçanha. Este o chamou de lado:
– A Elvira anda jurando que você volta! Diz que quer ser mico de circo se você não voltar!
Pulou, malcriadíssimo:
– Ela é besta! Não quero ver essa cara nem pintada! Isola!
Estaria certa? Estaria errada? Ninguém podia saber. Havia, porém, quem julgasse ver, no caso Belchior e Elvira, um desses sombrios mistérios do sexo, sem explicação possível.

Noite de núpcias

Finalmente, deu-se o casamento. Na igreja, quando Marina passou a caminho do altar, houve um deslumbramento. Na sua graça frágil e intensa, era uma imagem realmente inesquecível. Após a cerimônia, voltaram os dois para a casa dos pais de Marina, onde passariam a residir. Às onze horas, despediu-se o último convidado. Os velhos, depois de abençoarem o casal, recolheram-se. Marina, transfigurada, sussurrou: “Espera um pouco que eu te chamo, Belchior. Espera.”

Nesse instante, bateu o telefone e Belchior, surpreso e inquieto, foi atender. Era Elvira dizendo:
– Olha! Eu te espero. A chave está debaixo do tapetinho. Vem, agora!
E desligou. Belchior encostou-se à parede, com a vista turva e as pernas bambas. Houve, nele, uma brusca e violenta nostalgia da mulher que era o seu ódio e seu desejo. Naquele justo momento Marina entreabriu a porta e avisou:
– Pode vir, meu bem!

Ele, porém, não pensava mais na noiva. Dir-se-ia um magnetizado. Sem rumor, deslizou pela escada, rente à parede. Meia hora depois, desceu de um táxi na porta da antiga residência. Insinuou a mão debaixo do capacho, apanhou a chave. Entrou. Em pé, no meio da escada, com o quimono rosa em cima da camisola, os pés nas sandálias de arminho, Elvira o esperava. Não houve uma palavra entre os dois. Belchior enlaçou a pequena e, com raiva e gana, a beijou muitas vezes. Então, Elvira riu, pendendo a cabeça:
“– Meu!”.
E foi esse orgulho que a perdeu. As mãos de Belchior desceram e se fecharam sobre o pescoço macio. Apertou até o fim, sem saber que a estrangulava, sem saber que a estava matando. Depois, abraçado ao cadáver, disse arquejante:
– Não te enterrarei nunca! Ficarás comigo aqui!
E pousou a cabeça sobre o coração, que não batia mais.

Um dos contos de A vida como ela é..., por Nelson Rodrigues


Há o que se pensar sobre a vida, não? Acima, opiniões – não obrigatoriamente as nossas. E para vocês: como é a vida...? Bjocas e um excelente sábado! Augusto, Tê e Jana!

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