terça-feira, 30 de novembro de 2010

O besteirol na televisão: TV Pirata

Vídeo: TV Pirata, 1989
Muitos de vocês, leitores, talvez não se lembrem, por motivos vários, mas, na década de 80, no Brasil, surgiu ― ou seria apenas uma recriação? ― um novo estilo de se fazer teatro e televisão: o besteirol.

A pesquisadora Eudinyr Fraga, no Dicionário do teatro brasileiro, da Editora Perspectiva, entende por tal estilo a

"Denominação dada a um conjunto de peças surgidas a partir da década de 1970, no Rio de Janeiro e São Paulo, composta de pequenos esquetes, piadas, jogos de palavra e situações de nonsense. Tudo é motivo para a sátira, desde os modismos verbais até os comportamentais (...) As peças se articulam em torno do ator, apelando para a sua capacidade de improvisar (ou mais que isso, de dar a impressão de).”


Tanto no teatro, quanto na televisão, Miguel Falabella é sempre apontado como um nome conhecido quando o tema é mencionado. Por força da impressão de banalidade e riso fácil, o ator explica que, na época, muitos críticos rotularam esse novo estilo de “alienante” pois, num período de tentativa de democratização do País, sobretudo no teatro, era preciso ser “engajado” política e artisticamente. O ator explica:

"Alienados seríamos se não refletíssemos sobre a frenética sociedade de consumo em que nos tranformamos. Alienados seríamos se ficássemos restritos aos clássicos, aos grandes autores, em montagens bem-comportadas, para ganhar o beneplácito dos senhores da cultura. Levamos a chanchada e a paródia à cena, sim. Com muito prazer. Porque estamos cada vez mais atentos à realidade à nossa volta."

Na verdade, o besteirol, numa relação interativa, propicia um diálogo com sua plateia. Esse tipo de atuação exige inteligência, sensibilidade, criticidade e informação, qualidades necessárias ao seu real entendimento. Requer um público atento às inúmeras associações sutis, às referências a fatos/coisas aparentemente sem ligação, às críticas disfarçadas de “pura inocência”. O humor é, desse modo, concebido na sua natureza anárquica: rompe com dogmas, padrões preestabelecidos, inverte, subverte, sem se preocupar com preconceitos de toda ordem.

Limites? Hum ... nem mesmo na habilidade de improvisação... Talvez os limites da “insustentável leveza do ser”...! Em outros termos: o esgotamento/excesso da ironia “suportada” pelo ser humano.

No teatro, Trair e coçar... é só começar já está em cartaz há cerca de vinte anos. Na televisão, Casseta & PlanetaSai de Baixo, entre outros, são exemplos do gênero.

Como a nostalgia às vezes bate à minha porta, selecionei um vídeo de um programa ao qual assistia sempre, o TV Pirata, cuja estreia se deu em 1988. Nele, os "pobres", ao se apropriarem do discurso dos "ricos" ("Do que estão reclamando? Olha que vida boa a deles [dos pobres]! Recebem tudo nas mãos e nunca estão satisfeitos!", etc, etc), o subvertem: tomam literalmente o discurso dos "ricos" e o manifestam de forma invertida. É impossível não rir, rsrsr!


Se gostaram desse tipo de humor, cliquem aqui. No site, há informações detalhadas sobre o programa. Vale a pena! Voltaremos a postar sobre isso. Bjocas! Tê, Jana e Augusto!

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