sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Breve cena de uma criança entediada


Assistindo à televisão - o que muito raramente o faço -, fiquei chocada com uma peça publicitária. Nela, uma criança, com uma determinação de adulto, com um linguajar e um modo de vestir também adultos (tudo isso, a um telespectador atento, tão-só postura aparente), olhava diretamente para mim e me dizia: "Se você está entendiada com as férias porque não tem o que fazer, assine "X", pois você terá acesso à internet livremente". Não é de deixar qualquer adulto indignado...? Não... Muitos adultos sequer notam o paradoxo da cena: a criança fazendo as vezes de adulto, e o adulto tratado como se criança o fosse. 

Em primeiro lugar, pergunto: a quem é dirigida essa publicidade e quem essa criança "representa"? É porta-voz de quem? Com tanta segurança ao falar - insisto, aparente! -, pareceu-me estar diante de um adulto. Tudo soava falso: o olhar da criança, seus gestos, suas roupas, sua pergunta. A pergunta, obviamente, ao se reportar o "tédio" das férias escolares, deveria ser dirigida às crianças. No entanto, quem pode "assinar 'X', senão um adulto? Diria que, em tese, a peça publicitária é dirigida às crianças, mas só em tese... Na verdade, eu estava diante de uma criança que, numa postura autoritária em relação aos adultos, ordenava-lhes: "Assinem!". Por que uma criança? Porque ela tem sido o alvo preferido da mídia quando se trata da venda de produtos, de estilos de vida, de valores. Afinal, quem resiste ao apelo de uma carinha "tão bonitinha... parece um adulto falando!"?

Desliguei-me da tevê após brevíssima mas profunda intervenção da tal criança e comecei a rememorar minha infância... Na casa da minha avó portuguesa, Conceição, brincava com minha irmã e meus dois primos. Onde brincávamos? No telhado... Sim, no telhado da casa, rsrs!! Adorávamos essa aventura e não reclamávamos de tédio em momento algum. Depois, eu e minha irmã sentávamos em um tapete colocado sobre os degraus de uma longa escadaria e meus dois primos iam descendo à frente puxando o tapete. Invertíamos: eles sentavam e nós os puxávamos. Como sempre alguém balançava, caía ou desistia no meio do caminho, ríamos muito! Mais tarde, conheci a Luciane e, na casa do meu avô Joaquim, eu e ela acordávamos cedinho, pegávamos nossos brinquedos - lego, bonecas, jogos, bicicleta - e só os deixávamos de lado na hora de dormir. Era assim nos finais de semana e durante as férias.

Brinquei dessa forma até por volta dos doze anos quando, então, comecei a despertar para outros interesses da pré-adolescência (ainda existe essa fase...?). Na pré-adolescência, passava alguns dias das férias na "Colônia de férias do vô Aimoré", como ele chamava o chalé verde com o pátio enorme, a parreira de uvas, o jasmineiro... Quando não estava em nenhum desses lugares, estava em casa: lia, brincava com minhas irmãs, com as/os vizinhas/os, enfim, curtia o "tempo ocioso", para mim, sagrado.

Voltando à propaganda da televisão e a um dos questionamentos iniciais - "Afinal, quem resiste ao apelo de uma criança 'tão bonitinha... parece um adulto falando!'?" - pergunto a vocês, leitores: e se nós resistirmos...? Que tal? Assim não correremos o risco de o conteúdo da imagem deste post (que, aliás, já é chocante!) sobrepor-se ao conteúdo da ilustração do post acima . Pensem nisso... Bj, Tê!

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