domingo, 30 de janeiro de 2011

Por que a Betty é azul...?

Imagens: aqui

Intensidade

Quem
peito
abarca
louco 
aperta


O amor de Betty e Zorg...

Sobre o poema: Benedetti, Mario. O amor, as mulheres e a vida. Campinas: Verus, 2010, p, 115.

E não é...? 

O estranho e sensível "Betty Blue"


Betty Blue eu vi ainda no final da década de 80, com a Gikinha, minha amigona. Não perdíamos um filme no "Sessão de Arte", fizesse sol, chuva ou frio - e às vezes fazia muuuuuuito frio! Adoramos Betty, desde a trilha sonora (belíssima!) até a  trama (um drama ultrassensível!), o elenco. Eu indico. Acho que ela também indicaria. Vejam algumas cenas e curtam a trilha sonora (um som "demaiiiis de lindo", rsrs!). Há também detalhes sobre o filme. Basta acessarem aqui. E bjocas carinhosas com o desejo de um excelente domingo! Tê!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Hans Sylvester

Trabalho lindíssimo, não? Merece ser divulgado. Desejamos um excelente sábado! Bjs!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os múltiplos sentidos dos corpos (ou a estética que fala)

A África continua sendo vista não só por capitalistas sedentos de novas fontes de renda, mas também por alguns intelectuais de esquerda mal informados, como um paraíso exótico e extravagante, pronto a ser aqui na terra desfrutado, apreciado, saboreado. Corrobora-se, assim, a tese do "bom selvagem"*. Ora, até então, nenhuma novidade pois talvez seja justamente essa tese que garante a exploração sempre ilimitada - principalmente econômica - de outras nações ocidentais mais ricas sobre as do continente africano, e mais, de países africanos sobre outros também países africanos.


Entretanto, essa "passividade" do "bom selvagem africano" foi questionada pelas lentes atentas e críticas de Hans Sylvester. Até me deparar com o livro  de Sylvester - Les peuples de l'Omo**sequer tinha ouvido falar da existência do território e das tribos Surma e Mursi, habitantes do entorno do Rio Omo, na fronteira com a Etiópia, na África Oriental. Menos ainda sabia de seus costumes e de sua maneira de (sobre)viver.   
O livro mostrou-me que, longe dessa passividade que lhes é atribuída, seus habitantes se veem constantemente envolvidos em guerrilhas pois o território dessas tribos configura-se um espaço claramente delimitado do comércio de armas e marfim. Mesmo diante das possibilidades de tantos conflitos, é de se admirar a preocupação das tribos com questões estéticas, concordam? Mas não creio ser exatamente assim. As fotos revelam um povo bastante vaidoso com seu visual, porém, seria esse realmente ou tão-só o motivo de se enfeitar com tanto cuidado...? Aliás, por que desde sempre a humanidade pinta seus rostos e corpo, tatua-se, enfeita-se? Quais sentidos as tribos desejam expressar com essa atitude? Apenas prazer? Essa é a ideia que inferi da leitura da obra. Bem, pode não ser a única... E os motivos políticos ou as políticas de se "dizer" algo com tais looks?, acrescento. Improváveis?
No livro, ao se evidenciarem as imagens,questiona-se: como fazem para criar seus visuais? Segundo as informações colhidas, muitos nativos, ao longo do tempo, passaram a usar peles de animais obtidas em suas caças para transformá-las em lindas caneleiras. Como a região - vulcânica - oferece-lhes um amplo conjunto de pigmentos multicores, usam-nos para pintarem seus corpos, valendo-se apenas das pontas dos dedos e de um pouco de argila. Pintam a si próprios e aos outros numa atitude lúdica, cujos resultados expressam intensa beleza e sensualidade.
Às vezes, um tronco, um galho, uma flor, ou mesmo uma folha servem como acessórios para adornar a cabeça, as orelhas, o pescoço. Noutras, isso se torna dispensável, como na foto imediatamente abaixo. Todo esse envolvimento com os recursos naturais fazem do corpo uma extensão da própria natureza. Mesclam-se o humano, o vegetal e animal em perfeita harmonia.
Os corpos são a "tela"; os recursos da natureza, a "tinta"; e os dedos, os "pincéis", o instrumento. E assim, vão expressando sentidos e criando lindas obras de arte...! Quem manteve contato com os nativos afirma não haver uma "teoria" capaz de explicar sua arte. Chegam a dizer que, ao vê-los pintar seus corpos, ficaram extasiados pois o fazem com uma velocidade comparada com a que Jackson Pollock*** pintava seus quadros!
Mas voltemos ao questionamento inicial: que sentidos expressam seus corpos...? Ou ainda: por que os enfeitam dessa forma? Difícil explicar... os "homens de Kibish", como também são conhecidos, têm sua ascendência em ancestrais de 120.000 anos. Sem conhecer a história desses grupos, que se têm mantidos isolados da civilização, tanto ocidental quanto oriental, como saber? Todo corpo tem sua história, não nos esqueçamos disso...
Hans Sylvester compilou as fotografias em forma de livro, como já mencionei. Sem dúvida, um trabalho riquíssimo, mas é possível que se torne no futuro apenas um acervo a ser guardado em prateleiras de bibliotecas ou em materiais digitalizados.


A justificativa para a afirmação anterior reside no fato de, em nome do progresso, a energia elétrica se fazer necessária. Até aí tudo bem, desde que houvesse progresso mas a cultura desses povos fosse preservada.
Projeto há para se construir e instalar uma hidrelétrica capaz de gerar energia para a capital da Etiópia, Adis Abeba. Entretanto, o  governo desse país não tem demonstrado preocupação com os efeitos desastrosos que tal projeto possa vir a causar sobre as tribos.
Pergunto: não haveria outras alternativas de se gerar essa energia necessária sem acarretar a possível extinção ou "contaminação" das tribos com grupos já "civilizados"? Os representantes dos governos se interessam por essas alternativas? Parece que não. Lamentável a ideia de "progresso" dos chefes de governo de alguns países...
O que fazer? Para os mais céticos em relação a mudanças sociais, resta-lhes admirar as deslumbrantes fotos de Hans Sylvester... E aos outros...? Quem sabe...?
Por fim, algumas informações sobre o fotógrafo. Hans Sylvester nasceu em Lorrach, Alemanha, em 1938. Sua obra já foi exposta em diferentes museus e espaços culturais de várias partes do mundo. Ao optar pelo livro como meio de compilar sua obra, Sylvester procura atingir um número maior de apreciadores. Recebeu uma medalha de bronze em 1975, na Feira do Livro de Leipzig (Alemanha) e o prêmio Águia de Ouro, em 1976, na Feira do Livro de Nice (França). As fotos deste post, presentes no livro Les peuples de l'Omo, renderam-lhe a premiação do Livro do Ano da Fotografia, em 2006, Paris.

* Sobre o mito do bom selvagem: cliquem aqui.
**Para redigir este post, consultei a versão em francês do livro Les peuples de l'Ómo, do autor citado.As imagens foram extraídas da internet.
*** Sugiro assistirem ao filme Pollock, que mostra a trajetória pessoal e artística do pintor.


Desejamos um excelente final de quinta-feira! Bjssss! Jana e Tê! Augusto manda bjs da Bahia! Uauuuu! 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A sensibilidade poético-visual do erotismo




Descrição honesta de si mesmo junto a um copo de whisky no aeroporto, digamos, em Minneapolis


Meus ouvidos ouvem cada vez menos das conversas,
meus olhos vão ficando mais fracos,
mas não se fartaram.
Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas ou tecidos voláteis.
Observo uma a uma suas bundas e coxas, pensativo,
acalentado por sonhos pornô.
Velho depravado, é a cova que te espera,
não os jogos e folguedos da juventude.
Não é verdade, faço apenas o que sempre fiz,
compondo cenas dessa terra sob as ordens
de uma imaginação erótica.
Não desejo essas criaturas, desejo tudo,
e elas são como o signo de uma convivência estática.
Não é minha culpa se somos feitos assim,
metade contemplação desinteressada, e metade apetite.
Se após a morte eu chegar ao Céu,
lá deve ser como aqui, só que me terei desfeito da obtusidade dos sentidos
e do peso dos ossos.
Tornado puro olhar, sorverei ainda as proporções do corpo humano,
a cor da íris, uma rua de Paris em junho de manhãzinha, toda a incompreensível,
a incompreensível multidão das coisas visíveis.

(Czeslaw Milosz, poeta polonês, Nobel de Literatura, 1980)

O poema pode ser encontrado em Não mais. Brasília: Ed. UNB, 2003, com tradução de Marcelo Paiva de Souza. Ou em Caderno de Literatura. Porto Alegre, Jun/2009, ano XIII, n. 17, p: 43.

Para saberem mais sobre Czeslaw Milosz, cliquem aqui.

Imagens extraídas do Museu de Arte Erótica Romeo Zanchett (aqui). O MAERZ é o primeiro museu de arte erótica da cidade do Rio de Janeiro. Ele surgiu por iniciativa do artista plástico Nicéas Romeo Zanchett, que ampliou e transformou seu atelier em museu particular, abrigando as obras originais do artista.


Para lerem um pouco sobre a arte do erotismo, confiram o texto de Romeu Zanchett _ A arte do erotismo _, clicando aqui. Lembro que, em muitas sociedades, como na Índia antiga, por exemplo, o ato sexual não era considerado em oposição à espiritualidade. Ao contrário, a ele era atribuído um lugar de honra. Homens e mulheres estudavam o Kama Sutra e textos similares. Os templos estavam cobertos de baixos-relevos ilustrando as mais diversas posições sexuais.

Esse erotismo me pareceu muito bem representado no poema e nas esculturas acima. Lindos, não? Até então, com algumas exceções - Benedetti, Cortázar -, sempre postava no Tear poemas relacionados à arte erótica sob a perspectiva feminina. Que tal virar a moeda? Desejo-lhes uma excelente terça-feira! Bj, Tê!

domingo, 23 de janeiro de 2011

O palíndromo do Caê: Irene

Irene

Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui.
Eu não tenho nada, quero ver Irene rir.
Quero ver Irene dar sua risada!
Quero ver Irene dar sua risada!
Irene ri, Irene ri, Irene!
Irene ri, Irene ri, Irene!
Quero ver Irene dar sua risada!

Caetano Veloso, como sempre, arrasa! Esse vídeo foi gravado em Pelotas, aqui no Sul. Não sabia detalhes sobre a composição da música até que li no Nemvem quenãotem comentários do editor. Vale a pena conferir o blog, que contém fotos da família Veloso.

“Quando ouvi Irene pela primeira vez achei natural que fosse, entre guitarras distorcidas que já nos oitenta soavam pitorescas, uma música de saudade do jovem baiano que sentia falta dos seus afetos. Eu não fazia a menor ideia de quem era a Irene da música. No progressivo aumento do meu interesse pela obra de Caetano, soube que Irene era uma das irmãs dele. Pouco tempo depois, num especial da televisão brasileira _ daqueles que os meus amigos gravavam com generosidade pra mim quando o acesso à informação era menos democrático e simples _ eu soube que a música tinha sido criada pelo artista na cadeia, porque o sorriso de Irene, aberto e sonoro, era o completo oposto daquela realidade.

Fiquei comovido com a história e a beleza da metáfora. (...) Mas mesmo ignorando os motivos que levaram Caetano a compor a música, eu já gostava muito dela, da musicalidade ritmica do verso quero ver Irene rir e do contraste das guitarras elétricas e o andamento com o que as palavras significavam (...).”.

E acrescenta o editor que Caetano refere assim o acontecimento:

“Irene tinha catorze anos então e estava se tornando tão bonita que eu por vezes mencionava Ava Gardner para comentar sua beleza. Mais adorável ainda do que sua beleza era sua alegria, sempre muito carnal e terrena, a toda hora explodindo em gargalhadas sinceras e espontâneas. Mesmo sem violão, inventei uma cantiga evocando-a, que passei a repetir como uma regra: Eu quero ir minha gente/ Eu não sou daqui/ Eu não tenho nada/ Quero ver Irene rir/ Quero ver Irene dar sua risada/ Irene ri, Irene ri, Irene... Foi a única canção que compus na cadeia.” (em Verdade Tropical, de Caetano Veloso).

Sobre isso o editor explica:

“(...) Eu já tinha conversado com Caetano, em entrevista em Buenos Aires no começo da década de noventa, sobre a tristeza desses anos [os da ditadura latina]. Agora, através do encontro humanamente virtual com a arte e a pessoa de Maria Sampaio, achei entre os seus links o blog de Irene Veloso, precisamente chamado Irene ri, com o palíndromo que descobriu o grande Augusto de Campos. E lá está ela, com seu sorriso, que jamais testemunhei ao vivo, mas que imagino do jeito que o artista o descreveu, no antagonismo da opressão, como uma vitória da liberdade.”

Pois é. Caetano estava na prisão na época em que fez Irene. Não se deixou abater pelas coisas tristes e amargas, pela humilhação e pelo abandono, lembrou-se, isto sim, da risada da “sua” Irene ... ! E compôs uma magnífica música que entrou em definitivo para a história da MPB atual. Há quem consiga extrair o diamante que existe debaixo da lama e fazê-lo brilhar! Há quem seja mesmo é pura alegria, vida, ... genialidade! É só ouvir Caetano. E viva Irene! Bjs neste final de domingo! Tê!



Ps: Duvido de que a não goste deste post, rsrsr! Bons tempos!

domingo, 16 de janeiro de 2011

Palhaço, de Gismonti

Fiquei divagando, divagando... Por que Palhaço, do Gismonti? Pela saudade... Pela saudade da minha infância e adolescência, pela saudade da Rê, que recém esteve aqui. Adorávamos Gismonti - ainda no tempo dos bolachões de vinil! - e o escutávamos na nossa adolescência. Hoje, nos vemos apenas de dois em dois anos... Mas vale a pena esperar, especialmente porque posso ter a Rê por perto, e mais, beijar, apertar abraçar meus lindiiinhos - Gustavo e Lucas -, brincar com eles e fazer cócegas!

Lembrei que fomos assistir ao espetáculo do Tholl, agora em dezembro, em Pelotas, e o Gustavo queria vir morar no Brasil para fazer parte da trupe circense, rsrs! Lembrei também que tiramos fotos com os palhaços do Tholl... E a saudade bateu...! Então, fico em companhia das minhas divagações e da minha saudade... E a vocês, desejo um bom final de noite! Quanto a eles e a Rê, estão nas fotos. Vejam como é linda e que rosto  querido e simpático! E eles, que carinhosos e tão saudáveis! Tia boba é assim... os sobrinhos não têm defeitos! Ops!!!! Alguém disse que têm?????? Ah...! Rsrsr! 

Deixemos para falar sobre Gismonti num outro dia, ok? Bjssss, Tê!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Palíndromos, anagramas, ... ou simplesmente Hannah

Dedico à querida Aracy Ernst, para quem fiz especialmente este poema.

Hannah*,

ar de luz azul:

lilás ou anil?

Entre lilases, lilás és.

Ávida de vida,

ávida, dá vida!

Aviva, ave viva:

sê viver!

Hannah,

ágil liga entre

o afã de rasar o mar e o amar.

Reviver? Revives:

... a mares ia ... maresia ...

entre mares e amares....

Se há mares, amar és:

sê mar ..., sê rama ....

Hannah,

raiar da aurora:

aroma de amora ou romã?

Íris rara a reter

os seres do além!

Aura áurea aérea

a orar um raro amém:

amem!

Hannah,

um radar a reger os seres

a reter no raro orar o viver,

revives ...

E a reviver o rir,

num raro orar,

Ravana a animar a ânima

...Nirvana...

Hannah!

Tua asa aviva,

aviva a vida,

acata e ataca

o avatar atávico.

Atávica,

aviva o avatar:

viverá!

Hannah!

Leva-me, amável Hannah,

ao azul anil!

luz azular,

luz azul no ar,

Leva-me lá no além!

Lá, não há ser vil

Nem servil:

só livres!

Por Teresinha Brandão

*Hannah: nome de origem hebraica, cujo significado remete a “favor ou graça”; ou ainda: “graça de Deus”.

Queria que os cinco sentidos estivessem presentes no poema:visão (lilases/lilás/íris/azul/anil/luz/azular);tato (liga/rasar);olfato (mares/maresia/mar/aroma); paladar (romã/amora); audição (radar/orar/ravana).

Inseri os quatro elementos fundamentais presentes na natureza: água; fogo; ar; terra, remetendo-os à espiritualidade. Quisera alcançássemos todos o ...! Não seria Pasárdaga...? Rsrsr! Por que não? Bjssss! Uma excelente sexta-feira! Tê!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Palindromerando nas ruas de Satolep...

Este vídeo, um book trailler feito com a participação de Eduardo Amaro da Silveira, pelotense radicado em Lisboa _, sobre a obra Satolep do também pelotense Vítor Ramil serviu-me como uma primeira reflexão acerca do significado do termo palíndromo, originado das palavras gregas palin ("trás") e dromos ("corrida"). As frases cujas construções são feitas com palíndromos denominam-se anacíclicas, do grego anakúklein, significando uma volta em sentido inverso, refazendo inversamente o ciclo da leitura.

Imagem: aqui
Sob o ponto de vista filosófico, o palíndromo sintetiza o início e fim. Em poucas palavras: sintetiza também o retorno à origem, mas no sentido inverso, o “eterno retorno” sobre o qual muitos filósofos não se cansam de refletir. Expressa um sentido de permanência, como se a eternidade fosse trazida ao presente, sem deixar de ser infinita _ um círculo vicioso? Uma circularidade?


Não li sobre a estética do frio, de Vítor. Aliás, leitura sempre adiada essa, mas a me instigar! Conheço a música, que transcreverei noutro post. Vítor percebe Satolep como uma cidade circular? Em que sentido? A que retorna? Para aonde vai? Vejam que interessante palíndromo criado pelo nosso compositor pelotense. Além disso, quem desejar acessar a letra de Satolep, bem como a biografia de Ramil, clique aqui e aqui.

P E L O T A S
1 2 3 4 5 6 7
S A T O L E P
7 6 5 4 3 2 1


Pelotas é uma cidade que “corre atrás”? De quê? Para aonde? Por que Vítor Ramil teria invertido as letras, formando uma imagem “espelhada” de Pelotas? Ele a vê pelo “avesso”? Ou o avesso não é o avesso? É o contrário desses questionamentos? Bem, são divagações para uma nova postagem...


Palíndromos tornaram-se famosos igualmente em outras línguas. São palavras, frases ou qualquer outra sequência de vocábulos que pode ser lida tanto da direita para a esquerda como da esquerda para a direita. Cumpre esclarecer que são desconsideradas as marcas de acentuação, bem como as de pontuação e os espaços entre as palavras.


Em francês: “Leon nón osa rever a son Noel”, ou seja, “Leon não ousa sonhar com seu Noel (Natal)”.


Em inglês, “A man, a plan, a canal: Panamá” (Theodore Rooselvelt), além do clássico “Madam, I’m Adam” — frase com que Adão saudou Eva, na versão inglesa do gênese (He, he! Que Adão gentil...!). Em espanhol, “Dabale arroz a la zorra el abad”. Em português, “Roma me tem amor”, é registrado como o mais antigo. No entanto, é em latim que a palindromia ficou bastante conhecida.


Representadas pelo Quadrado Sator, as palavras podem ser lidas em qualquer direção, conforme esquema abaixo, cujo significado remete a “O semeador Arepo trabalha auxiliado por uma roda” (“Sator Arepo tenet opera rotas”). O palíndromo pode ser representado por uma forma espelhada, em que a palavra/enunciado escolhida/o aparece às avessas: a primeira letra da frase é igual à última, a segunda igual à penúltima, sucessivamente, obedecendo a uma cadeia até chegar à letra central, isso se o número total de letras for ímpar, ou letras centrais se o número for par, como no referido Quadrado Sator.                                       
                                                         
                                                                S A T O R
A R E P O
T E N E T
O P E R A
R O T A S


Rômulo Marinho, apaixonado estudioso do assunto, explica que não há consenso acerca de sua “tradução”, reforçando a ideia de quão “intraduzível” pode ser a estrutura palíndroma não apenas nesse caso, como também de um modo geral. Cita mais duas traduções possíveis: “Arepo, o semeador, segura as rodas durante o trabalho”; “Sator, o pastor, tem suas obras encaminhadas”. Retomando Satolep, de Vítor Ramil, lembramos que voltaremos, em outros posts a examinar composições da MPB, cujos artistas igualmente criaram suas músicas valendo-se dessa técnica.

Enquanto isso ... por que não põem a criatividade à mostra, caros leitores? Amanhã postarei um poema que "pretende" ser poema e formado por palíndromos. Bjsss nossos! Uma ótima quinta-feira!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Literatura na web e as micronarrativas

Imagem: Minimundo *, parque de lazer em forma de uma minicidade, em Gramado, RS. Conheça mais no excelente blog Ilustrattus: aqui.

Ao buscar as informações mencionadas no post imediatamente abaixo deste, deparei-me com uma matéria  bastante atrativa: Há vida literária na Web, dizem escritores na Flip (leiam na íntegra aqui). Nela, a jornalista explica que Marcelino Freire convidou cem autores, como Dalton Trevisan, Millôr Fernandes, Lygia Fagundes Telles, os quais escreveram contos com até 50 letras, para compor a obra. Quem desejar conhecer mais sobre o autor do projeto, acesse o próprio blog de Marcelino _ eraOdito (cliquem aqui).


Eis alguns dos microcontos presentes na obra:


“Amor"
Maria,quero caber todo em você.
(Manoel de Barros)


"O Pesadelo de Houaiss
Quando acordou, o dicionário ainda estava lá*.” (Joca Reiners Terron)


"Crepuscular
Pegou o chapéu, embrulhou o sol,então nunca mais amanheceu.” 

(Menalton Braff)

“_ Eu não te amo mais.
_ O quê? Fale mais alto, a ligação está horrível.”
(Jorge Furtado; sem título)


“Boletim de Carnaval
_ Fui estuprada, vó. Três animais!
_ E tu esperava o quê? Um noivo?” 
(Luiz Roberto Guedes)


No blog de Marcelino Freire, mencionado acima, o escritor publicou os ganhadores de um concurso que ele mesmo organizou a fim de premiar os melhores microcontos com exatas seis palavras. Eis os ganhadores:


(1º lugar): “Gênese
Escuridão. Deus desemcapando fio: Terra.” 
(Carlos Nealdo)


(3º lugar): “Vendia heroína para comprar a polícia.” 
(NightHiker)


Acrescentou (sem ordem de classificação):
“Nunca acreditou em sinais. Morreu atropelada.” 
(Adrienne Myrtes)


Olá
— Olá, quem é?
— O título.” 
(Filipe Lazarini)


“Metafísica
Sinto-me profundamente na superfície.” 
(Pedro Macielo)


*O Minimundo é um parque de lazer em forma de uma minicidade, em Gramado, RS, onde quase tudo é 24 vezes menor. As construções e o urbanismo são encantadoramente pequenos, inclusive as árvores, arbustos, pessoas e meios de transporte, numa perfeição quase que inacreditável. No blog Illustratus há uma ótima matéria sobre o assunto. Acessem aqui!


**Possível referência ao mais conhecido e menor microconto do mundo, do guatemalteco Augusto Monterroso: “Cuando despertó, el dinosaurio todavia estaba allí” (Nota minha).

Já publicamos alguns posts sobre microcontos no Tear _ Micronarrativas: uma introdução, As micronarrativas de Bonassi e Voltaire (aqui), entre outras: aqui e aqui

Entretanto, novas reflexões são sempre bem-vindas. Após ler a obra, postarei mais a respeito. Por ora, é isso, mas, se alguém quiser ensaiar-se na arte de produzir microcontos desse tipo, há espaço neste blog...!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Saramago, o twitter e a literatura na web

Recebi o e-mail abaixo do prof. Vilson Leffa, do PPG _ Letras da Ucpel.
Assunto? "O Twitter na visão de José Saramago"


"O twiter não é mais do que a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até ao grunhido."
(José Saramago, Prêmio Nobel da Literatura, jornal Expresso, 1 de Agosto de 2009)


Como estava procurando informações para adquirir Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, de Marcelino Freire, associei as informações sobre os microcontos desse livro com a declaração de Saramago.

Explico: Marcelino Freire é um escritor cuja produção literária está diretamente vinculada a web e, em especial ao twitter:

“Acho o Twitter uma mania de perseguição, uma coisa esquizofrênica. Você está me seguindo, eu estou te seguindo. Mas quem está te seguindo, você não conhece, nunca viu na vida. Isso é uma neurose. Mas o que vou fazer com isso? Literatura. Onde ela, literatura, puder estar, seja no celular, no Twitter, acho ótimo”, declarou na FLIP 2009.

O escritor considera o uso das novas tecnologias, como a rede social twitter, uma forma de aproximar os jovens com a literatura. O blog é um dos seus instrumentos de trabalho e, por meio do twitter, quer postar 1.001 “contos nanicos”, para usar uma expressão dele mesmo. Existe, segundo ele, uma nova vida literária postada na web e muitas editoras, explica, já perceberam isso e estão, portanto, incentivando essa postagem em busca de novos talentos.

É... uma reflexão interessante. Que tal conhecermos um pouco mais sobre Marcelino Freire e suas ideias sobre literatura na web em um próximo post?

domingo, 9 de janeiro de 2011

Uma tentativa de compreensão do termo "literatura erótica"

Imagem: esculturas de Dominique Regnier (site oficial: aqui)

Pode-se entender literatura erótica conforme o E-Dicionário de Termos Literários, de Carlos Ceia (aqui), mas com a presença de colaboradores: 

"Género literário que inclui toda a literatura licenciosa, dirigida para a libertação do desejo sexual ou do amor sensual, independentemente do grau de licenciosidade, o que levaria, como alguns entendem, a uma distinção entre literatura erótica (menos licenciosa) e literatura pornográfica (abertamente licenciosa). 

Essa distinção está longe de ser válida para toda a literatura que descreve experiências do desejo sexual e do amor explícito. Se atendermos ao facto de que até ao final do século XIX, por força da moral estabelecida canonicamente, toda a literatura que ofendesse os bons costumes, excitasse claramente o apetite sexual ou cuja linguagem incluísse termos licenciosos ou obscenos era considerada “erótica”, com uma forte carga pejorativa, então não devemos ser nunca capazes de estabelecer um critério rigoroso para distinguir o que é erotismo do que é pornografia


Por exemplo, uma busca na Internet sobre literatura erótica levar-nos-á hoje a toda a espécie de sítios de pornografia comercial, o que pode ajudar a compreender como é fácil confundir erotismo com pornografia. Por outro lado, a literatura erótica remete para as descrições estéticas do amor sensual, rejeitando a exclusividade da procura do prazer explícito que resulta da exibição pública ou privada desse amor. O nível de representação do amor sensual tem servido também, com muitos riscos, para distinguir o erotismo (softcore, menos explícito, menos descritivo, menos visual) da pornografia (hardcore, mais explícita, mais descritiva, mais visual). 


Obviamente, encontraremos nas literaturas de todo o mundo inúmeros exemplos que podem contrariar essa distinção. Uma outra distinção tem a ver com o tipo de censura que o erotismo (menos censurável) e a pornografia (mais censurável) podem veicular. Como essa distinção depende do tipo de formação cultural e moral de cada indivíduo, não vemos como pode funcionar como critério independente para avaliar as diferenças entre os dois tipos de representação literária do amor sensual. 


Finalmente, as mais recentes tentativas da crítica feminista para distinguir entre uma arte menos opressora da figura da mulher enquanto objecto do desejo sexual (erotismo) e uma arte que repugna por reduzir a mulher a um mero objecto sexual, simbólico ou real (pornografia), encalham no facto de muitas representações literárias não separarem os papéis sexuais de forma tão clara, colocando até a figura masculina em funções pouco edificantes ou em posições de perda de poder. 


Por essas razões, e porque a base de todo o desejo sexual é a relação amorosa (o elogio de eros) e não necessariamente a relação pornográfica (do grego porné, “cortesã, prostituta”, logo o elogio da prostituição), optamos por consagrar a entrada deste verbete a partir da designação mais universal de literatura erótica, ficando implícita a inclusão da literatura que se considere pornográfica, mas também obscena, indecente, libidinosa, licenciosa, ultrajante, etc., adjectivos com os quais tem convivido sinonimamente. Aceitemos que “a pornografia é o erotismo dos outros” (pensamento atribuído a Chris Marker) ou que estamos a falar de “duas palavras que designam as mesmas coisas como é evidente, conforme o olhar que incida sobre elas” (Jean-Jacques Pauvert, A Literatura Erótica, Teorema, Lisboa, 2001, p. 9).  [...]." (Os grifos em itálico são do autor; os em negrito, são meus)

Por Carlos Ceia


O verbete, apesar de longo, merece uma especial atenção por não ser dogmático e estar bem fundamentado. Continuem a leitura acessando aqui. Vale a pena, até para conhecer o site! Um ótimo domingo! Bjs nossos!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

De entranhas, conchas e (a)mares

I

Suave
meu amor jaz a meu lado...
Consome-se seguro e confiante
em êxtase profundo
Murmura ais incompreensíveis −
gemidos em forma de prece    
... E pra que falar
doce amante
se teu falo
silencioso
mas ainda assim atento
jorrou
saciou (-nos)
quando te dei de beber
em meu sacralizado cálice
transbordante
de frementes desejos?

II

Tragaste voraz
Meu precioso licor e
com a urgência
de um visionário no deserto
lambeste minha taça
por insaciável sede
Ah, lascívias carícias –
imoralidades prazerosas –
coito línguas lábios coxas!
Meus peitos
ostras-conchas
abrigam duas pérolas
que ainda imploram ser
delicadamente mordidas e
alimentar-te


III

Sei que lançarás novamente
teu líquido
em minhas sépalas
já dilatadas e ardidas pelo teu apetite
para em mim
te comprazeres uma vez mais
Minha ourela reclama 
entreaberta e úmida
em viçoso cio
para que teu flácido e saciado falo
enrijeça fértil e frenético e
no altar sagrado da nossa alcova
o casto pecado
a pureza e a fúria
deliciosamente
possam se misturar

 IV

Não adormeças assim
meu amor
Te aguardo
Ele fenece mas
há de florescer
desperto
rígido
até me penetrar de novo
e despertar
e arrebatar
essas minhas estranhas entranhas

 Por Teresinha Brandão

Bjussss carinhosos! Tê!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Segredo

Imagem de Karol Bak (aqui)

Não contes do meu

vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os

cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o

anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu

novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço

com eles
a fim de te ouvir gritar


Extraído de: Horta, Maria Teresa Horta. Cem poemas (Antologia Pessoal). RJ: Ed. 7Letras, 2006, p. 83.