domingo, 23 de janeiro de 2011

O palíndromo do Caê: Irene

Irene

Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui.
Eu não tenho nada, quero ver Irene rir.
Quero ver Irene dar sua risada!
Quero ver Irene dar sua risada!
Irene ri, Irene ri, Irene!
Irene ri, Irene ri, Irene!
Quero ver Irene dar sua risada!

Caetano Veloso, como sempre, arrasa! Esse vídeo foi gravado em Pelotas, aqui no Sul. Não sabia detalhes sobre a composição da música até que li no Nemvem quenãotem comentários do editor. Vale a pena conferir o blog, que contém fotos da família Veloso.

“Quando ouvi Irene pela primeira vez achei natural que fosse, entre guitarras distorcidas que já nos oitenta soavam pitorescas, uma música de saudade do jovem baiano que sentia falta dos seus afetos. Eu não fazia a menor ideia de quem era a Irene da música. No progressivo aumento do meu interesse pela obra de Caetano, soube que Irene era uma das irmãs dele. Pouco tempo depois, num especial da televisão brasileira _ daqueles que os meus amigos gravavam com generosidade pra mim quando o acesso à informação era menos democrático e simples _ eu soube que a música tinha sido criada pelo artista na cadeia, porque o sorriso de Irene, aberto e sonoro, era o completo oposto daquela realidade.

Fiquei comovido com a história e a beleza da metáfora. (...) Mas mesmo ignorando os motivos que levaram Caetano a compor a música, eu já gostava muito dela, da musicalidade ritmica do verso quero ver Irene rir e do contraste das guitarras elétricas e o andamento com o que as palavras significavam (...).”.

E acrescenta o editor que Caetano refere assim o acontecimento:

“Irene tinha catorze anos então e estava se tornando tão bonita que eu por vezes mencionava Ava Gardner para comentar sua beleza. Mais adorável ainda do que sua beleza era sua alegria, sempre muito carnal e terrena, a toda hora explodindo em gargalhadas sinceras e espontâneas. Mesmo sem violão, inventei uma cantiga evocando-a, que passei a repetir como uma regra: Eu quero ir minha gente/ Eu não sou daqui/ Eu não tenho nada/ Quero ver Irene rir/ Quero ver Irene dar sua risada/ Irene ri, Irene ri, Irene... Foi a única canção que compus na cadeia.” (em Verdade Tropical, de Caetano Veloso).

Sobre isso o editor explica:

“(...) Eu já tinha conversado com Caetano, em entrevista em Buenos Aires no começo da década de noventa, sobre a tristeza desses anos [os da ditadura latina]. Agora, através do encontro humanamente virtual com a arte e a pessoa de Maria Sampaio, achei entre os seus links o blog de Irene Veloso, precisamente chamado Irene ri, com o palíndromo que descobriu o grande Augusto de Campos. E lá está ela, com seu sorriso, que jamais testemunhei ao vivo, mas que imagino do jeito que o artista o descreveu, no antagonismo da opressão, como uma vitória da liberdade.”

Pois é. Caetano estava na prisão na época em que fez Irene. Não se deixou abater pelas coisas tristes e amargas, pela humilhação e pelo abandono, lembrou-se, isto sim, da risada da “sua” Irene ... ! E compôs uma magnífica música que entrou em definitivo para a história da MPB atual. Há quem consiga extrair o diamante que existe debaixo da lama e fazê-lo brilhar! Há quem seja mesmo é pura alegria, vida, ... genialidade! É só ouvir Caetano. E viva Irene! Bjs neste final de domingo! Tê!



Ps: Duvido de que a não goste deste post, rsrsr! Bons tempos!

Nenhum comentário: