domingo, 9 de janeiro de 2011

Uma tentativa de compreensão do termo "literatura erótica"

Imagem: esculturas de Dominique Regnier (site oficial: aqui)

Pode-se entender literatura erótica conforme o E-Dicionário de Termos Literários, de Carlos Ceia (aqui), mas com a presença de colaboradores: 

"Género literário que inclui toda a literatura licenciosa, dirigida para a libertação do desejo sexual ou do amor sensual, independentemente do grau de licenciosidade, o que levaria, como alguns entendem, a uma distinção entre literatura erótica (menos licenciosa) e literatura pornográfica (abertamente licenciosa). 

Essa distinção está longe de ser válida para toda a literatura que descreve experiências do desejo sexual e do amor explícito. Se atendermos ao facto de que até ao final do século XIX, por força da moral estabelecida canonicamente, toda a literatura que ofendesse os bons costumes, excitasse claramente o apetite sexual ou cuja linguagem incluísse termos licenciosos ou obscenos era considerada “erótica”, com uma forte carga pejorativa, então não devemos ser nunca capazes de estabelecer um critério rigoroso para distinguir o que é erotismo do que é pornografia


Por exemplo, uma busca na Internet sobre literatura erótica levar-nos-á hoje a toda a espécie de sítios de pornografia comercial, o que pode ajudar a compreender como é fácil confundir erotismo com pornografia. Por outro lado, a literatura erótica remete para as descrições estéticas do amor sensual, rejeitando a exclusividade da procura do prazer explícito que resulta da exibição pública ou privada desse amor. O nível de representação do amor sensual tem servido também, com muitos riscos, para distinguir o erotismo (softcore, menos explícito, menos descritivo, menos visual) da pornografia (hardcore, mais explícita, mais descritiva, mais visual). 


Obviamente, encontraremos nas literaturas de todo o mundo inúmeros exemplos que podem contrariar essa distinção. Uma outra distinção tem a ver com o tipo de censura que o erotismo (menos censurável) e a pornografia (mais censurável) podem veicular. Como essa distinção depende do tipo de formação cultural e moral de cada indivíduo, não vemos como pode funcionar como critério independente para avaliar as diferenças entre os dois tipos de representação literária do amor sensual. 


Finalmente, as mais recentes tentativas da crítica feminista para distinguir entre uma arte menos opressora da figura da mulher enquanto objecto do desejo sexual (erotismo) e uma arte que repugna por reduzir a mulher a um mero objecto sexual, simbólico ou real (pornografia), encalham no facto de muitas representações literárias não separarem os papéis sexuais de forma tão clara, colocando até a figura masculina em funções pouco edificantes ou em posições de perda de poder. 


Por essas razões, e porque a base de todo o desejo sexual é a relação amorosa (o elogio de eros) e não necessariamente a relação pornográfica (do grego porné, “cortesã, prostituta”, logo o elogio da prostituição), optamos por consagrar a entrada deste verbete a partir da designação mais universal de literatura erótica, ficando implícita a inclusão da literatura que se considere pornográfica, mas também obscena, indecente, libidinosa, licenciosa, ultrajante, etc., adjectivos com os quais tem convivido sinonimamente. Aceitemos que “a pornografia é o erotismo dos outros” (pensamento atribuído a Chris Marker) ou que estamos a falar de “duas palavras que designam as mesmas coisas como é evidente, conforme o olhar que incida sobre elas” (Jean-Jacques Pauvert, A Literatura Erótica, Teorema, Lisboa, 2001, p. 9).  [...]." (Os grifos em itálico são do autor; os em negrito, são meus)

Por Carlos Ceia


O verbete, apesar de longo, merece uma especial atenção por não ser dogmático e estar bem fundamentado. Continuem a leitura acessando aqui. Vale a pena, até para conhecer o site! Um ótimo domingo! Bjs nossos!

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