quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Isadora Duncan: vida, arte e mar

Ao tratar da obra de Isadora Duncan e sua vida, é inevitável fazê-lo sem citar sua relação com Nietzsche, Whitman, poetas russos da sua época, e com os artistas e filósofos da antiga Grécia.
Isadora foi a primeira dançarina de sua geração a utilizar os conceitos de "respiração natural", identificando-a com as ondas do mar. É por isso que transcrevo os trechos a seguir, extraídos de Minha vida, Ed. José Olympio, 10ª ed., 1986.


"Nasci junto do mar e já notei que todos os grandes acontecimentos da minha vida sempre ocorreram nas suas proximidades. A minha primeira ideia de movimento da dança veio-me certamente do ritmo das águas. [...] Acredito também que a vida de uma criança há de ser muito diferente, conforme ela tenha nascido junto do mar ou junto da montanha. O mar sempre me atraiu, enquanto as montanhas me dão um indefinido mal-estar e incitam-me a fugir. Elas me trazem a impressão de ser uma prisioneira da terra. Quando levanto os olhos para seus cumes, não experimento a admiração da generalidade dos turistas, mas apenas o desejo de saltar por cima deles e escapar-me. Minha vida e minha arte nasceram do mar. (p. 3 - 4)


"Minha arte é precisamente um esforço para exprimir em gestos e movimentos a verdade de meu ser. E foram-me precisos longos anos para encontrar o menor gesto absolutamente verdadeiro. As palavras têm um sentido diferente. Diante do público, que acudia em massa as minhas representações, eu jamais hesitei. Dava-lhes os impulsos mais secretos de minha alma.

Desde o inicio, nada mais fiz do que dançar a minha vida. Criança, dançava a alegria espontânea dos seres em crescimento. Adolescente, dancei com uma alegria que se transforma em apreensão diante das correntes obscuras e trágicas que começava a lobrigar no meu caminho. Apreensão da brutalidade implacável da vida e da sua marcha esmagadora" (prefácio)

Desejo-lhes uma excelente quarta-feira! Bj, Tê!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pedofilia em três atos


“Senta aqui, disse o pai”. E Gabi sentou. Depois, se lambuzou com os chocolates. Cinco anos.
............
“Bailarina, Gabi...? Vem cá no tio, que eu te ensino.” 
Oito anos.
............
“Gabi era assim, esquisita, chorosa desde pequena. Cheia de mas e reticências. Ficava horas com o olhar perdido, fixo nas ataduras e nos pulsos cortados...
Na mente, a mesma pergunta:
‘– De que adianta querer zerar o passado se há esse pingo a gotejar sobre minha cabeça...?’ ”
Quinze anos.

Por Teresinha Brandão
Boa noite! Bj carinhoso!!!! Tê!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Rainer M. Rilke: ainda das mulheres e dos homens

Imagem: aqui

"Assim, aqueles que se juntam durante as noites se entrelaçam em uma volúpia agitada fazem um trabalho sério, reúnem doçuras, profundidade e força para a canção de algum poeta vindouro que surgirá para expressar deleites indizíveis. Eles convocam o futuro; mesmo que errem e se abracem cegamente, o futuro virá apesar de tudo, um outro homem se elevará, e a partir do acaso que parece se realizar aqui desponta a lei pela qual um germe forte e resistente se lança em direção ao óvulo, que vem receptivo a seu encontro.

[...] Talvez se encontre acima de tudo uma grande maternidade, como anseio comum. [...] Também no homem a maternidade, ao que me parece, é corporal e espiritual; sua produção também é um modo de dar à luz, quando ele cria a partir da plenitude de seu íntimo está dando à luz. Talvez os sexos tenham mais afinidade do que se considera, e a grande renovação do mundo talvez venha a consistir no fato de que o homem e a mulher, libertados de todos os seus sentimentos equivocados e de todas as suas contrariedades, não se procurarão mais como adversários, mas como irmãos e vizinhos, unindo-se como seres humanos, para simplesmente suportar juntos, com seriedade e paciência, a difícil sexualidade que foi atribuída a eles. [...]" (Grifos meus)

Extraído de: Rilke, R. M. Cartas a um jovem poeta, trad. de Pedro Süssekind. Porto Alegre: L & PM, 2006, p. 45 - 47.

No post imediatamente anterior a este, ao transcrever um poema de Marina Colasanti e comentar sobre o livro A primeira vez à Brasileira, temas como sexualidade, relações entre mulheres e homens vieram à tona e afirmei "quero ter fé em que, um dia talvez, homens e mulheres sejam "apenas" pessoas... É uma utopia? É. Simples assim."

No fragmento da carta acima, Rainer Maria Rilke soube expor como grande poeta que é, essas mesmas "utopias" _ relações, acrescidas de outras, tais como maternidade e criação artística. Simples assim? É. Simples assim.
Grande bj! Tê!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Das mulheres e dos homens: (des)amor e (des)sexualidade

Imagem: de Ognian Kouzmanov (aqui)

Sexta-feira
Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clitóris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.
Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Por Marina Colasanti (aqui)


Lembro-me de que, quando li A Primeira Vez... à Brasileira, Ed. Nosso tempo, 1979, da escritora e feminista Heloneida Studart e de Wilson Cunha, dois aspectos na obra me sensibilizaram: a seriedade do trabalho realizado pelos organizadores e a maneira opressiva como tanto homens quanto mulheres lidam com sua sexualidade _ termo a ser diferenciado de vida ou relação sexual _, sobretudo na primeira experiência sexual. O livro relata, em forma de depoimentos, a primeira relação sexual de personalidades tais quais Elke Maravilha, Ney Latorraca, Sandra Bréa, Marília Pêra, Di Cavalcanti, Othon Bastos, entre outras.

Não pude, ao me deparar com o poema acima, deixar de associá-lo às narrativas do livro... O depoimento de Othon Bastos foi marcante, sensível, assim como o de outras figuras masculinas. Depoimentos doídos, sofridos, depoimentos de quem tão-só deseja livrar-se de um passado assustador...

Apesar de ainda haver muito radicalismo em determinados grupos de movimentos feministas em todo o mundo, pergunto-me: e os homens são apenas "vilões" desse espetáculo grotesco em que se transformou a vida sexual de muitas pessoas? Não..., não acredito nisso. Quero crer na possibilidade de superação da "guerra sexista" desses grupos radicais.

Com todo o respeito merecido pelas conquistas de muitas mulheres que abalaram as relações do patriarcalismo opressor, romperam com a tirania de leis intransigentes, de tabus e dogmas, tornando-se precursoras e geradoras de novas ideias mais humanistas e humanizadoras, manifestas nas novas práticas sociais, políticas e culturais, quero ter fé em que, um dia talvez, homens e mulheres sejam "apenas" pessoas... É uma utopia? É. Simples assim. Quanto ao livro, leitura recomendada. Grande bj, Tê!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Clara Nunes: porta-voz dos orixás e do mar


A MPB e muitos brasileiros sentem a falta de Clara Nunes... Talvez tenha sido a voz feminina que mais homenageou as divindades afrobrasileiras. Para saberem mais sobre a cantora, acessem aqui. Desejamos um excelente domingo! Bjssss nossos!

O mar de Dori Caymmi


Dorival Caymmi... amou o mar com toda a intensidade: seu corpo, sua voz, sua música exalavam o doce perfume do mar...! 

"Os negros e mulatos que têm suas vidas amarradas ao mar têm sido a minha mais permanente inspiração. Não sei de drama mais poderoso que o das mulheres que esperam a volta, sempre incerta, dos maridos que partem todas as manhãs para o mar no bojo dos leves saveiros ou das milagrosas jangadas. E não sei de lendas mais belas que as da Rainha do Mar, a Inaeê dos negros baianos". Para lerem mais, cliquem aqui.

Yemanjá na voz de Mariza Monte



Dia 02 de fevereiro foi também o dia de homenagens a Yemanjá. Esse orixá feminino é um dos mais cultuados em nosso país. Assim como Nossa Senhora dos Navegantes, Yemanjá é protetora dos humildes pescadores, dos marinheiros, e, sobretudo dos que "dialogam" com o mar... Porque o mar "é de quem o sabe amar", como bem lembram os poetas, as santas e os orixás, e mais, Leila Diniz e Milton Nascimento. Para saber mais sobre Yemanjá, acessem aqui. Desejamos um excelente domingo! Bjssss nossos!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Os poetas e as santas: conversas com mar

Imagem: Preparação para a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes.
Foto: acervo pessoal: Teresinha Brandão

Passei o dia ouvindo o que o mar dizia
Eu hontem passei o dia 
Ouvindo o que o mar dizia. 
Chorámos, rimos, cantámos. 
Fallou-me do seu destino, 
Do seu fado... 
Depois, para se alegrar, 
Ergueu-se, e bailando, e rindo, 
Poz-se a cantar 
Um canto molhádo e lindo. 
O seu halito perfuma, 
E o seu perfume faz mal! 
Deserto de aguas sem fim. 
Ó sepultura da minha raça 
Quando me guardas a mim?... 
Elle afastou-se calado; 
Eu afastei-me mais triste, 
Mais doente, mais cansado... 
Ao longe o Sol na agonia 
De rôxo as aguas tingia. 
"Voz do mar, mysteriosa; 
Voz do amôr e da verdade! 
- Ó voz moribunda e dôce 
Da minha grande Saudade! 
Voz amarga de quem fica, 
Trémula voz de quem parte..." 
. . . . . . . . . . . . . . . . 
E os poetas a cantar 
São echos da voz do mar!


Por António Botto, em Canções.

No post imediatamente anterior a este mencionei os versos de uma composição de Leila Diniz e Milton Nascimento: Brigam Espanha e Holanda/ Pelos direitos do mar/ Porque não sabem que o mar/ É de quem o sabe amar.

Com poucos dias de atraso, lembro a Festa de Nossa senhora de Navegantes (02/02/2011), protetora dos humildes pescadores, dos marinheiros, e, sobretudo dos que "dialogam" com o mar... Porque o mar "é de quem o sabe amar". É lindo apreciar o sentimento de religiosidade dos que participam da festa, com os barquinhos e jangadas, enfeitadas com flores e bandeirinhas, carregada de singelos presentes, tudo feito pelas mãos dos próprios pescadores, talvez os que, como os poetas, mais dialogam com o mar e o compreendam... 
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"A designação Nossa Senhora dos Navegantes originou-se no século XV com a navegação dos europeus, especialmente dos portugueses. Aqueles que viajavam pediam proteção a Nossa Senhora, para retornarem salvos à pátria.

O simbolismo da mulher corajosa e orientadora dos viajantes fez com que Maria fosse vista como uma eterna vencedora dos inimigos das tempestades. Costuma-se festejar o dia que lhe é dedicado, com uma grande procissão fluvial no Brasil. [...]". Leia mais clicando aqui.

Bjs nossos!!!! Desejamos um ótimo sábado!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Leila Diniz e os donos (?!) do mar

Imagem: Leila Diniz em Ipanema, RJ, década de 60 (aqui)


Brigam Espanha e Holanda 

Pelos direitos do mar


O mar é das gaivotas


Que nele sabem voar


O mar é das gaivotas


E de quem sabe navegar.


Brigam Espanha e Holanda


Pelos direitos do mar


Brigam Espanha e Holanda


Porque não sabem que o mar


É de quem o sabe amar.

Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco, é uma composição de Leila Diniz e foi lindamente musicada na igualmente bela voz de Milton Nascimento*. Cliquem no link  para ouvi-la. Indescritível!

Imagem: Leila Diniz grávida de Janaína (aqui)

Para saberem mais acerca da biografia de Leila Diniz, acessem aqui.


*Há a versão da música com a gravação da voz de Leila declamando ao fundo os versos acima e Milton cantando. No entanto, não está muito nítido o vídeo. Daí a preferência por este.


Amanhã, em algumas cidades do RS, como Pelotas, é feriado: comemora-se o Dia de Yemanjá e a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. O sincretismo religioso no Brasil é forte. Amanhã postarei sobre essas divindades, Donas do Mar. Divindades femininas... E "mães"... O que haverá de mágico no mar que seduz tanto as mulheres? Por que elas (os homens também...?) o compreendem tão bem? Talvez tenha sido esse "amor incondicional pelo mar" que me estimulou a postar hoje sobre o mar... e essa linda e intensa mulher: Leila Diniz.


Bjs!!!! Um excelente início de semana! Tê!